Sob o meu olhar

Aqui neste blog, vocês poderão ver, ler e comentar a respeito do que escreverei. Por meio deste meu olhar sincero, tentarei colocar artigos e dar minha opinião sobre questões atuais como politica, problemas sociais, educação, meio ambiente, temas que tem agitado o mundo como um todo. Também escreverei poesias e colocarei poemas de grande poetas que me afloram a sensibilidade, colocarei citações e frases pequenas para momentos de reflexão.
É desta forma que vou expor a vocês o meu olhar voltado para o mundo.

27/12/2011

Por Sara, que tanto amamos!

A cantora e compositora cubana Sara González, uma das principais vozes do movimento Nueva Tropa, participou neste domingo (25) de uma reunião com amigos, admiradores e médicos da clínica onde se recupera de uma cirurgia. Roberto Chile e Iván Soca registraram em fotos e vídeos “esta noite mágica com uma mulher completa e querida”, segundo os participantes.

Sara González  Sara González fala durante festa em sua homenagem, domingo (25)
 
Visivelmente emocionada, Sara desejou a todos "muitas coisas boas, muita felicidade e boa saúde" .

Nascida em 1949, na década de 1960 estuda viola no Conservatório Amadeo Roldán. Gradua-se na Escola Nacional de Instrutores de Arte, onde também foi professora de Guitarra e Solfejo.
É uma das fundadoras do Movimento da Nueva Trova Cubana e um dos seus principais expoentes. Pertenceu também ao Grupo de Experimentação Sonora do ICAIC, sob a direção de Leo Brouwer, onde estudou Composição, Harmonia e Orquestração.

Produziu música para cinema, televisão e rádio além de participar de vários discos coletivos juntamente com outras personalidades do Movimento da Nueva Trova e do GES.
Sempre à frente em seus esforços para promover a música de Cuba, recebeu honras de lugares tão diversos como Roma e Baracoa, Santiago de Cuba ou Veneza.

Sara González já dividiu os palcos com Silvio Rodríguez, Pablo Milanés, Augusto Blanca, Joan Manuel Serrat, Chico Buarque, Mercedes Sosa, Soledad Bravo, Daniel Viglietti, Pete Seeger, Roy Brown, Pedro Guerra, Beth Carvalho, Liuba María Hevia, Anabell López, Marta Campos e Heidi, sendo mundialmente reconhecida não só por seus talentos musicais como por seu engajamento na luta pela justiça social.

Da sua discografia fazem parte os títulos: Versos sencillos de José Martí (1975); Cuatro cosas (1982); Con un poco de amor (1987); Con apuros y paciencia (1991); Si yo fuera mayo (1996) e Mírame (1999).

Compôs várias músicas revolucionárias, muitas delas dedicou ao líder Che Guevara, como “Ande lo que Andes”.

Da sua discografia fazem parte os títulos: Versos sencillos de José Martí (1975); Cuatro cosas (1982); Con un poco de amor (1987); Con apuros y paciencia (1991); Si yo fuera mayo (1996) e Mírame (1999).



25/12/2011

Um ano de Dilma e a ascensão do Brasil


Por Mauro Santayana, em Revista do Brasil



Os críticos mais à esquerda podem condenar a atitude de Lula, em sua primeira campanha e na condução dos dois governos, mas os resultados é que contam. Como dizia Marx, o critério da verdade é a prática. 


As concessões aos neoconservadores deram ao presidente espaço e tempo para trabalhar no seu objetivo maior. Lula trazia, com seu passado, o compromisso quase obsessivo de lutar contra a miséria. Nos primeiros anos, talvez supusesse que isso fosse possível a ferro e fogo. Pouco a pouco, aprendeu o jogo necessário da política: contra a força é necessária a astúcia.

Foi assim que, na busca de seu projeto, fez as alianças indicadas pelas circunstâncias. Como líder sindical, não fazia distinção entre os patrões, fossem nacionais, fossem estrangeiros; como líder de um partido, compreendeu que era preciso moderar o discurso. A isso foi aconselhado pela própria experiência, mas possivelmente também influenciado pela ala mais pragmática de seu grupo. Foi assim que Lula decidiu firmar documento assumindo o compromisso de respeitar todos os acordos assumidos anteriormente em nome do Estado, entre eles o das privatizações.

Ao convocar o empresário e político José Alencar, além de situar-se bem com os setores industriais, sempre inconformados com a voracidade do sistema financeiro, teve a sabedoria de ter um mineiro, com suas qualidades, como companheiro de chapa. Para sossegar os banqueiros, que temiam perder o controle do Banco Central, entregou o órgão a Henrique Meirelles. Trouxe ainda os empresários para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, no qual puderam, e podem, defender interesses específicos de classe. E reduziu, embora não tenha eliminado, a sua ação conspiratória contra o governo chefiado por um proletário autêntico.

O primeiro passo foi retirar os pobres da miséria absoluta e secular, mediante a política direta de ajuda às famílias assoladas pela fome. Não foi difícil a ele chegar à equação singela: mais dinheiro na mão dos pobres significa mais consumo; mais consumo, mais emprego; mais emprego, mais consumo e mais empregos: enfim, o desenvolvimento geral da economia. O resultado é que todos ganharam, e muitos empresários perceberam que seus lucros crescem à medida que a renda nacional é mais bem distribuída e o mercado interno aumenta.

Ao mesmo tempo, Lula usou a plenitude da sabedoria nas viagens ao exterior. Como todos os meninos pobres e inteligentes, teve de negociar desde cedo, com os outros e com as circunstâncias: com irmãos mais velhos, com companheiros de trabalho e chefes, com os patrões. A virtude obtida na adversidade levou-o a quebrar a resistência dos governantes mundiais – ao contrário de Fernando Henrique, que pretendia conquistar os donos do mundo com a subserviência de sua diplomacia. Lula estava poupado, por exemplo, de citar Weber.

Dilma herdou um projeto contundente de combate à pobreza e às desigualdades, mas também um ambiente de difícil relação com o Parlamento

Comunicava-se com alma. Não tinha por que se curvar. O povo, ao elegê-lo, fizera-o igual a qualquer outro governante do mundo e permitia-lhe até, sem faltar à elegância, substituir os ritos rígidos do protocolo pela afetividade de quem respeita no outro alguém igual a si mesmo.

Reconhecimento

Foi um Brasil novo, menos desigual no plano interno e mais respeitado no plano externo, que Lula entregou a Dilma Rousseff, moça da classe média de Belo Horizonte, já combatente contra a ditadura em um tempo em que Lula, dois anos mais velho, ainda não se interessava pela política. 

Dilma manteve todos os compromissos de Lula, mas é certo que não se trata de um clone do antecessor. Ela é senhora de ideias próprias e de biografia bem diferente, sobretudo no que se refere à atuação política. Exilada de Minas no Rio Grande do Sul, optou por seguir Leonel Brizola e se inscreveu no PDT, fez carreira na Prefeitura de Porto Alegre antes de participar do governo do estado – e de entrar para o Partido dos Trabalhadores.

Na escolha de Dilma, houve outro ato sábio de Lula. Só uma figura nova, de seu núcleo pessoal de confiança, provada como boa administradora e firme no comando, poderia unir, como uniu, o partido. Ao evitar expor a sucessão a riscos de dissidências internas, viabilizou a vitória que não permitiu o retrocesso neoliberal.

Dilma herdou de Lula as dificuldades para a manutenção do apoio parlamentar, necessário aos atos de governo. Sem partidos com programas ideológicos definidos, a verdadeira representação parlamentar é corporativa. As corporações – como a Febraban (federação dos bancos) e as multinacionais, nisso as mais ativas – trabalham primeiro para situar seus delegados na hierarquia dos partidos, na relatoria dos projetos mais importantes e no domínio das comissões do Congresso para, em seguida, fazê-los, mediante os partidos, ministros de Estado.

Ao assumir o governo, Dilma procurou manter a equipe de Lula quase integralmente. Foi então que enfrentou a primeira crise, no caso do ministro Antonio Palocci, que a substituíra na chefia da Casa Civil. Não havia como preservá-lo, depois de suas infelizes explicações públicas. A partir de então, intensificaram-se as denúncias contra outros ministros. Ela agiu com prudência, dando aos acusados a oportunidade de se explicar. 

Com Nelson Jobim, ela atuou rapidamente, porque, não estando acusado de nenhum ato ilícito – embora o Ministério da Defesa não esteja livre de suspeitas a serem investigadas –, o político gaúcho desafiara, com desaforo, a autoridade de seu governo. Essa autoridade da presidenta é reconhecida nos setores lúcidos da oposição.

No plano externo ela vem mantendo a nossa independência de julgamento e a aliança com os países que se encontram em situação semelhante à nossa, como China, Rússia, Índia, África do Sul e, mais recentemente, Turquia. É provável que a sua percepção de estratégia econômica seja mais acentuada. Ela já deu sinais nesse sentido, ao propor novo estatuto para a defesa das empresas realmente nacionais.

Na América do Sul, desenvolve o projeto da unificação política do continente, tendo o Mercosul como o instrumento de ação. O Brasil vem enfrentando, com êxito crescente, a crise mundial, que é política, embora se expresse na economia. É preciso registrar que o nosso país, sob Dilma, elevou sua posição, interna e externa, conforme registram os indicadores nacionais e internacionais.

As dificuldades que a presidenta venceu este ano a preparam para a reestruturação do governo no início do novo ano, de eleições municipais das quais dependerá o pleito presidencial de 2014. Dilma, ao que os fatos assinalam, irá conduzir o país no mesmo rumo, mas com sua própria forma de ver e entender o mundo, e isso se verá na composição de seu novo ministério.

Governo Dilma se une ao CNJ e fecha o ano em confronto com STF



Órgão da Presidência, Advocacia Geral da União aciona Supremo Tribunal Federal para cassar liminar da própria corte que proíbe órgão de controle externo do Judiciário de apurar conduta de juízes. Segundo mandado de segurança, investigar é de 'interesse direto do povo'. Dilma também peitou STF ao negar aumento salarial.

BRASÍLIA - O governo Dilma termina o ano em confronto com o Supremo Tribunal Federal (STF), a corte máxima do país e que, em termos políticos, fala pelos tribunais brasileiros. Na votação do orçamento 2012, não aceitou separar dinheiro para aumentar o salário de juízes e seus servidores. E, na polêmica sobre o direito de o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) investigar a magistratura, uniu-se ao órgão de controle externo do Judiciário na disputa contra o STF. 

A Advocacia Geral da União (AGU), que responde diretamente ao presidente da República e defende os interesses do governo federal em julgamentos no STF, entrou com um mandado de segurança na corte para derrubar liminar concedida por um ministro do mesmo Supremo que proibira a Corregedoria do CNJ de abrir processos para apurar a conduta de juízes e servidores do Judicário.

A ação do advogado Luiz Inácio Adams, que está no cargo desde a gestão Lula, lista uma série de argumentos jurídicos para questionar a concessão da liminar, no apagar das luzes do ano judiciário, pelo ministro Marco Aurélio Mello. Teria havido atropelo de uma lei que trata da magistratura e regras internas e processuais do STF. Mas tem alguns trechos que mostram que também há uma decisão política por trás da iniciativa.

A ação menciona que o CNJ tem cerca de 500 reclamações disciplinares em investigação e diz: "As centenas de irregularidades são investigadas em todo o território nacional, e muitas delas envolvem altos membros dos mesmos tribunais. Não se pode olvidar que são apreciados pelo CNJ casos de extrema gravidades e repecussão social, citando-se a título de exemplo a distribuição irregular de processos, o favorecimento em concursos públicos, fraudes e até mesmo indícios de enriquecimento ilícito e a venda de sentenças judiciais".

E complementa, no parágrafo seguinte: "Todos esses fatores, de interesse direto do povo, detentor de todo o poder, nos termos do artigo primeiro, parágrafo único da Constituição, tornam de clareza solar os riscos que o óbice à atução orginária do Conselho Nacional de Justiça impõe a toda coletividade, vulnerando o próprio Estado Democrático de Direito".

A liminar que a AGU quer cassar foi concedida num dia, segunda-feira (19), que o STF tiinha aberto as portas, em tese, apenas para empossar uma ministra, Rosa Weber, declarar oficialmente o fim do ano judiciário e sair de férias até fevereiro. Quem solicitara a liminar tinha sido uma entidade corporativa da magistratura, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).

A liminar foi concedida durante o dia e publicizada pelo próprio ministro Marco Aurélio. Naquela mesma segunda-feira (19), porém, uma outra liminar foi dada por um ministro do STF também para golpear poderes do õrgão de controle externo do judiciário, mas de forma quase clandestina. 

Às 21h, o ministro Ricardo Lewandowski proibiu a Corregedoria do CNJ de continuar investigando a vida patrimonial de 216 mil pessoas, entre juízes e servidores, que trabalham em tribunais de todo o país. Atendeu a um pedido de três entidades corporativas, a AMB, a Associação Nacional dos Juízes Federais (Ajufe) e a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra).

24/12/2011


Coriolano, nosso contemporâneo

Cena de "Coriolano", filme dirigido por Ralph Fiennes, baseado na peça de teatro de William Shakespeare
Por Slavoj Žižek.
Traduzido por Rogério Bettoni.
A propósito de Homero, Marx notou que “a dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopeia estão ligadas a certas formas de desenvolvimento social. A dificuldade reside no fato de ainda nos proporcionarem prazer estético e, em certos aspectos, valerem como normas e como modelos inatingíveis”. Para testar uma verdadeira obra de arte, basta perguntarmos como ela sobrevive à descontextualização, à transposição para um novo contexto. Talvez a melhor maneira de definir um clássico seja dizendo que ele funciona como os olhos de Deus em uma imagem religiosa: não importa a nossa posição no recinto, a imagem sempre parece estar olhando para nós. E não resta dúvida de que, até agora, a melhor adaptação cinematográfica de Dostoievsky seja O idiota, de Kurosawa, gravado no Japão depois da Segunda Guerra Mundial, que traz Myshkin como um soldado que retorna. A questão não é simplesmente lidarmos com um conflito eterno que aparece em todas as sociedades, mas sim com um conflito muito mais preciso: a cada novo contexto, uma obra clássica parece tratar da qualidade bem específica dessa época – é o que Hegel chamou de “universalidade concreta”. Há uma longa história dessas transposições bem-sucedidas de Shakespeare – isso só para mencionar algumas adaptações cinematográficas recentes: Otelo em um clube contemporâneo de jazz (Noite insana, de Basil Dearden, 1962), Ricardo III em uma fictícia Grã-Bretanha fascista da década de 1930 (Richard Loncraine, 1995), Romeu e Julietaem Venice Beach, Califórnia (Baz Luhrmann, 1996), Hamlet no centro de Nova York (Michael Almereyda, 2000).
Coriolano representa um desafio especial a essa recontextualização: a peça é tão exclusivamente centrada no orgulho militarista-aristocrático do herói e no seu desprezo pelo povo que podemos facilmente entender por que, depois da derrota alemã em 1945, as forças aliadas tenham proibido sua apresentação por conta da mensagem antidemocrática que ela carrega. Consequentemente, a peça parece oferecer uma escolha interpretativa bastante limitada. Quer dizer, quais são as alternativas para apresentar a peça do jeito que ela é, rendendo-se ao seu engodo militarista antidemocrático? Podemos tentar provocar o “estranhamento” sutil desse engodo por meio de sua excessiva estetização; podemos fazer o que Brecht fez na reescrita da peça, mudar o foco de exibição das emoções (a fúria de Coriolano etc.) para o conflito subjacente dos interesses econômicos e políticos (na versão de Brecht, o povo e os tribunos não são conduzidos pelo medo e pela inveja, mas agem racionalmente em vista da situação); ou, a que talvez seja a pior escolha, podemos nos ater a tolices pseudofreudianas sobre a fixação maternal de Coriolano e a força homossexual da relação entre ele e Aufídio. Ralph Fiennes (que teve John Logan como roteirista) fez o impossível, talvez assim confirmando a famosa afirmação de T. S. Eliot de que Coriolano é superior a Hamlet: ele escapou desse círculo fechado de opções de interpretação no qual todos inserem um distanciamento crítico voltado para a figura de Coriolano e fez valer totalmente o personagem – não como um fanático antidemocrata, mas sim como uma figura da Esquerda radical.
O primeiro passo de Fiennes foi mudar as coordenadas geopolíticas deCoriolano: “Roma” agora é uma contemporânea cidade-Estado em crise e decadência, e os “volscos”, rebeldes guerrilheiros esquerdistas, estão organizados no que chamamos hoje de “Estado-pária” (Pense na Colômbia e nas FARC, as “Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia”, controlando um vasto território ao sul do país – se as FARC não fossem corrompidas pelo tráfico de drogas). Esse primeiro passo repercutiu em vários detalhes bem claros, como a decisão de apresentar uma linha divisória entre o território controlado pelo exército romano e o território rebelde, o ponto de contato entre os dois lados, como uma solitária rampa de acesso numa estrada, um tipo de posto de controle dos guerrilheiros. (Aqui podemos soltar a imaginação; que tal explorar plenamente o fato acidental de que o filme foi gravado na Sérvia, sendo Belgrado “uma cidade que denominava Roma”, e imaginar os volscos e albaneses de Kosovo e Coriolano como um general sérvio que muda de lado e se junta aos albaneses?)
Poderíamos explorar aqui a sortuda escolha de Gerard Butler para o papel de Aufídio, líder volsco e oponente de Caio Márcio (Coriolano): como o grande sucesso de Butler foi Os 300 de Esparta, de Zack Snyder, no qual interpretou Leônidas, não deveríamos ter medo de considerar a hipótese de que, nos dois filmes, ele interpreta basicamente o mesmo papel do líder-guerreiro de um Estado-pária combatendo um império poderoso. Os 300, saga dos 300 soldados espartanos que se sacrificaram nas Termópilas para deter a invasão do exército persa de Xerxes, foi acusado de representar o pior tipo de militarismo patriota, com claras alusões às tensões recentes com o Irã e aos eventos no Iraque – mas será que é isso mesmo? Antes, o filme deveria ser integralmente redimido dessas acusações: ele conta a história de um país pequeno e pobre (Grécia) invadido pelo exército de um Estado muito maior (Pérsia), na época muito mais desenvolvido, que tinha uma tecnologia militar muito mais avançada – não seriam os elefantes gigantes e as longas flechas de fogo dos persas uma versão antiga das armas de alta tecnologia? Quando o último grupo sobrevivente dos espartanos e o rei Leônidas são mortos por milhares de flechas, não estariam de certa forma sendo bombardeados até a morte por tecnosoldados que operam armas sofisticadas a uma distância segura, como os soldados norte-americanos de hoje, que apertam um botão e lançam foguetes de dentro dos navios de guerra, bem de longe no Golfo Pérsico?
Além disso, as palavras de Xerxes, quando tenta convencer Leônidas a aceitar a dominação persa, não soam claramente como as palavras de um muçulmano fanático e fundamentalista? – ele tenta convencer Leônidas a se subjugar, prometendo-lhe paz e prazeres sensuais caso ele se una ao império persa global. Tudo o que pede dele é um gesto formal de ajoelhar-se, um gesto em reconhecimento à supremacia persa – se os espartanos fizerem isso, terão autoridade suprema sobre toda a Grécia. Não parece que o presidente Reagan exigiu a mesma coisa do governo sandinista da Nicarágua? Eles só tinham de dizer “Ei, tio!” para os Estados Unidos… E a corte de Xerxes não é retratada como um tipo de paraíso multicultural de diferentes estilos de vida? Lá não participam todos de orgias, diferentes raças, lésbicas e gays, aleijados etc.? Os espartanos, desse modo, com sua disciplina e seu espírito de sacrifício, não estariam muito mais próximos de algo como o Talibã defendendo o Afeganistão contra a ocupação dos Estados Unidos (ou, na verdade, contra a tropa de elite da Guarda Revolucionária Iraniana, disposta a se sacrificar no caso de uma invasão dos Estados Unidos)? Historiadores perspicazes já haviam notado esse paralelo – eis o texto da contracapa de Fogo persa, de Tom Holland:
“No século V a.C., uma superpotência global estava decidida a impor sua verdade e sua ordem a dois Estados considerados terroristas. A superpotência era a Pérsia, incomparavelmente rica em ambição, ouro e homens. Os Estados terroristas eram Atenas e Esparta, cidades excêntricas situadas em um lugar pobre, montanhoso e atrasado: a Grécia.”
Uma declaração programática quase no final do filme define a agenda da Grécia como “contra o reino da mística e da tirania, rumo a um futuro brilhante”, especificada depois como o domínio da liberdade e da razão – o que parece com o programa básico do Iluminismo, mesmo com uma pitada comunista! Também vale lembrar que, no início do filme, Leônidas rejeita por completo a mensagem dos “oráculos” corruptos, segundo os quais os deuses proibiam a expedição militar para deter os persas – como descobrimos depois, os “oráculos” que supostamente recebiam a mensagem divina em um transe extático foram efetivamente pagos pelos persas, como o “oráculo” tibetano que, em 1959, enviou para Dalai Lama a mensagem para que deixasse o Tibete; hoje sabemos que ele estava na folha de pagamentos da CIA.
E o que dizer do aparente absurdo da ideia de dignidade, liberdade e razão sustentada pela disciplina militar extrema, que inclui a prática de não aceitar crianças fracas? Esse “absurdo” é simplesmente o preço da liberdade – a liberdade não é gratuita, como colocam no filme. A liberdade não é algo dado, ela é reobtida por meio de uma luta pesada na qual é preciso estar disposto a arriscar tudo. A implacável disciplina militar espartana não é apenas o oposto externo da “democracia liberal” ateniense, mas sua condição inerente, ela funda as suas bases: o sujeito livre da Razão só pode surgir por meio da autodisciplina implacável. A verdadeira liberdade não é liberdade de escolha feita a uma distância segura, como escolher entre bolo de morango e bolo de chocolate; a verdadeira liberdade se sobrepõe à necessidade, uma escolha verdadeiramente livre é feita quando ela põe em jogo a própria existência – ela é feita simplesmente porque “não se pode fazer de outro modo”. Quando um país está sob ocupação estrangeira e alguém é chamado pelo líder da resistência a se juntar à luta contra os ocupantes, a razão dada não é “você é livre para escolher”, mas: “Você não vê que esta é a única coisa que pode fazer se quiser manter sua dignidade?”. Não surpreende que os primeiros radicais igualitários modernos, de Rousseau aos jacobinos, admirassem Esparta e imaginassem a França republicana como a nova Esparta: há um núcleo emancipador no espírito espartano da disciplina militar que sobrevive até mesmo quando subtraímos toda a parafernália histórica do domínio de classes de Esparta, da exploração e do terror sobre seus escravos etc. – tampouco surpreende que nos anos difíceis do “comunismo de guerra” Trotsky chamasse a União Soviética de “Esparta proletária”.
Soldados não são maus per se – maus são os soldados COM POESIA, soldados mobilizados pela poesia nacional. Não existe limpeza étnica sem poesia – mas por quê? Porque vivemos em uma era que percebe a si própria como pós-ideológica. Como grandes causas públicas já não têm mais a força para mobilizar o povo para a violência de massa, faz-se necessária uma Causa sagrada mais ampla, uma causa que faz as insignificantes preocupações individuais com a matança parecerem triviais. O pertencimento religioso ou étnico encaixa-se perfeitamente nesse papel. É claro que há casos de ateus patológicos capazes de cometer assassinatos em massa só por prazer, mas eles são raras exceções: a maioria precisa se anestesiar contra a sensibilidade elementar ao sofrimento dos outros, e para isso faz-se necessária uma Causa sagrada. Os idealistas religiosos costumam afirmar que, verdadeira ou não, a religião leva pessoas geralmente ruins a fazerem coisas boas; pela experiência atual, deveríamos antes nos ater à afirmação de Steve Weinberg: enquanto, sem religião, pessoas boas estariam fazendo coisas boas e pessoas ruins, coisas ruins, somente a religião pode levar pessoas boas a fazerem coisas ruins.
A reputação de Platão sofre por causa da sua afirmação de que os poetas deviam ser expulsos da cidade – um conselho bastante sensível tendo em mente a experiência pós-Iugoslávia, em que a limpeza étnica foi preparada pelos sonhos perigosos dos poetas. Sim, é verdade que Milosevic “manipulou” as paixões nacionalistas, mas foram os poetas que transmitiram a ele o material que serviu para a manipulação. Eles – os poetas sinceros, não os políticos corruptos – estiveram na origem disso tudo, quando, nos idos da década de 1970 e início da década de 1980, começaram a plantar as sementes do nacionalismo agressivo não só na Sérvia, mas também em outras repúblicas da antiga Iugoslávia. Em vez de um complexo industrial-militar, tivemos na pós-Iugoslávia um complexo poético-militar personificado nas figuras gêmeas de Radovan Karadzic e Ratko Mladic. Na Fenomenologia do Espírito, Hegel menciona a “silente tecedura do espírito”: o trabalho secreto de mudança das coordenadas ideológicas, predominantemente invisíveis aos olhos do povo, que de repente explodem e pegam todos de surpresa. Isso foi o que aconteceu na antiga Iugoslávia nas décadas de 1970 e 1980, tanto que já era tarde demais quando as coisas explodiram no final da década de 1980: o velho consenso ideológico estava totalmente podre, em ruínas. A Iugoslávia nas décadas de 1970 e 1980 era como o famoso gato dos desenhos animados que continua caminhando depois de chegar à beira do precipício e só cai quando finalmente olha para baixo e percebe que não há chão sob seus pés. Milosevic foi o primeiro a forçar todos nós a olharmos de fato para o precipício…
E para evitar a ilusão de que o complexo poético-militar é especialidade dos bálcãs, devemos mencionar pelo menos Hassan Ngeze, o Karadzic da Ruanda que, no jornal Kangura, espalhava sistematicamente o ódio contra os tútsis. Há quase um século, referindo-se ao advento nazista na Alemanha, Karl Kraus ironizou que a Alemanha, um país de Dichter und Denker (poetas e pensadores), tornara-se um país de Richter und Henker (juízes e algozes) – talvez essa inversão não nos surpreenda tanto… Finalmente, isso nos traz de volta aCoriolano – quem é o poeta? Antes de Caio Márcio (Coriolano) entrar no palco, é Menênio Agripa que acalma a multidão faminta e furiosa que exige trigo. Assim como Ulisses em Troilo e Créssida, Menênio é o ideólogo par excellence, que propõe uma metáfora poética para justificar a hierarquia social (nesse caso, o domínio do senado); e, na melhor tradição corporativista, a metáfora é a do corpo humano – eis como Plutarco no seu Vida de Coriolano reconta a história narrada pela primeira vez por Lívio:
“Uma vez todos os órgãos de um homem se revoltaram contra o estômago, acusando-o de ser o único preguiçoso, que em nada colaborava, enquanto todos os outros viviam adversidades e trabalhavam para suprir e atender seus apetites. O estômago, contudo, simplesmente ridicularizou a tolice de todos, que pareciam não saber que ele certamente recebia seu sustento, mas tinha como única função devolvê-lo e distribuí-lo para todo o resto. O mesmo acontece com cidadãos e senado. Os planos e desígnios que lá foram devidamente digeridos transmitem e garantem a todos vocês o benefício e o apoio apropriados.”
Qual a ligação de Coriolano com essa metáfora do corpo e dos órgãos, da rebelião dos órgãos contra o corpo? Claro está que Coriolano não representa o corpo, mas é um órgão que não só se rebela contra o corpo (o corpo político de Roma), como também abandona seu próprio corpo ao ir para o exílio – um verdadeiro órgão sem corpo. Quer dizer então que Coriolano está contra o povo? QUE povo? Os “plebeus” representados pelos dois tribunos, Bruto e Sicínio, não são trabalhadores explorados, mas sim uma horda lumpemproletária, a ralé sustentada pelo Estado; e os dois tribunos são manipuladores protofascistas dessa horda – citando Kane (cidadão do filme de Welles), eles falam pelo povo comum para que o pobre povo comum não fale por si mesmo. Se procurarmos o que representa “povo”, certamente o encontraremos entre os volscos. Prestemos atenção ao modo como Fiennes retrata a capital deles: uma cidade popular e modesta, localizada em um território liberado, onde Aufídio e os companheiros vestidos com uniformes de guerrilheiros (não o oficial do exército) misturam-se livremente ao povo em um clima de tranquila festividade, com as pessoas bebendo em cafeterias ao ar livre etc. – um nítido contraste à formalidade excessiva de Roma.
Então sim, Coriolano é uma máquina de matar, um “soldado perfeito”, e exatamente por ser um “órgão sem um corpo” é que não é fiel à sua classe e pode facilmente se colocar a serviço dos oprimidos – como ficou claro com Che Guevara, um revolucionário também tem de ser uma “máquina de matar”: “o ódio é um elemento de luta; o ódio implacável ao inimigo que nos impele para além das limitações naturais do ser humano e nos transforma em uma efetiva, violenta, fria e seletiva máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim; um povo sem ódio não pode derrotar um inimigo brutal.”
Há duas cenas no filme que dão uma pista para essa leitura. Quando Coriolano passa por um longo hall e fecha a porta atrás de si, depois de ter um acesso explosivo no senado, ele se vê sozinho no silêncio de um amplo corredor, e de frente para um faxineiro velho e cansado. Os dois trocam olhares em um momento de silente solidariedade, como se apenas o pobre faxineiro conseguisse ver agora quem era Coriolano. A outra cena é uma longa representação de sua viagem para o exílio, feita em tom de road movie, mostrando Coriolano como um viajante solitário que caminha, anônimo, no meio do povo. É como se Coriolano, obviamente fora do lugar na delicada hierarquia de Roma, só agora se tornasse o que ele é, só agora ganhasse sua liberdade – e a única coisa que pode fazer para mantê-la é se juntar aos volscos. Ele não se junta aos volscos só para se vingar de Roma, mas sim porque pertence a eles – ele só pode ser o que é se estiver entre os lutadores volscos. O orgulho de Coriolano é autêntico, é acompanhado da relutância de ser louvado por seus compatriotas e de se envolver em manobras políticas – um orgulho desse tipo não tem lugar em Roma, só pode mesmo prosperar entre os guerrilheiros.
Ao se juntar aos volscos, Coriolano não trai Roma por um sentimento de mesquinha vingança; o que faz é reconquistar sua integridade – seu único ato de traição ocorre no final, quando, em vez de guiar o exército volsco até Roma, ele organiza um tratado de paz entre os volscos e Roma, cedendo à pressão da mãe, a verdadeira figura do maligno superego. É por essa razão que ele volta para os volscos, plenamente ciente do que o espera lá: a punição bem merecida por sua traição.
É por isso que o Coriolano de Fienne parece efetivamente com o olho de Deus na imagem religiosa: sem mudar uma palavra sequer na peça de Shakespeare, ele olha exclusivamente para nós, para a situação em que nos encontramos hoje, resumindo a figura única de um lutador pela liberdade radical. 

PT ‘racha’ para assinar CPI


Carta Capital

Pouco menos da metade das 185 assinaturas confirmadas no pedido de abertura da CPI da Privataria na Câmara é de deputados do PT, a maior bancada da Casa. Ao todo, 67 petistas assinaram o documento, entre eles lideranças como André Vargas, Dr. Rosinha, Henrique Fontana, Vicentinho e Ricardo Berzoini.
Existem, no entanto, dois sinais de que, para sair do papel, a comissão não contará com tanta boa vontade dos caciques do partido.
Protógenes (foto), com o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia
O primeiro foi o certo constrangimento do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), ao receber do deputado Protógenes Queiróz (PCdoB-SP) o documento com as assinaturas.
Enquanto o ex-delegado dizia em seu Twitter que contava com o apoio do presidente da Câmara, Maia saiu de fininho, dizendo que ainda precisava observar as exigências regimentais para a criação da CPI. E que tudo só seria feito no início de 2012, quando as tramóias do governo tucano deveriam entrar na fila para serem investigadas pelos deputados, que já encaminharam comissões sobre o tráfico de pessoas e trabalho escravo.
A frieza pode ser entendida como traje institucional que cabe, de fato, ao presidente da Casa, que não pôde assinar o documento pedindo a investigação.
Mais simbólica foi a ausência, por exemplo, de nomes como o do líder do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira, na lista de requerentes. Este sim, que fala em nome do partido.
Em compensação, o requerimento contou com o apoio até mesmo de quatro deputados tucanos e cinco do DEM.
Soma-se esta ausência ao silêncio do Executivo em torno do livro de Amaury Ribeiro Jr. nos últimos dias. E entende-se que Protógenes e os demais entusiastas da CPI – entre os quais a bancada inteira do seu partido, o PCdoB – terão trabalho para apurar as suspeitas que pairam sobre o ex-governador José Serra e o governo Fernando Henrique Cardoso.
A batalha mal começou.

21/12/2011

Há 146 milhões de crianças desnutridas; nenhuma é cubana


No último balanço do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lê-se que atualmente existem no mundo 146 milhões de crianças menores de 5 anos com graves problemas de desnutrição. De acordo com este documento, 28% são de África, 17% do Médio Oriente, 15% da Ásia, 7% da América Latina e Caribe, 5% da Europa e 27% de outros países em desenvolvimento.



O relatório é inequívoco e informa que Cuba já não tem este problema, sendo o único país da América Latina que eliminou definitivamente a desnutrição infantil e que tudo tem feito para melhorar a alimentação, especialmente nos grupos mais vulneráveis. A própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) reconhece Cuba como a nação com mais avanços neste capítulo em toda a América Latina.

Isto deve-se fundamentalmente a que o Estado cubano garante uma cesta básica alimentar e promove os benefícios da lactância materna, complementando-a com outros alimentos até os seis meses e fazendo a entrega diária de um litro de leite para todas as crianças dos zero aos sete anos de idade, em conjunto com outros alimentos como compotas, frutas e legumes, os quais são distribuídos de forma equitativa.

Em Cuba a saúde é garantida a todas as crianças, mesmo antes de nascerem com o controle materno-infantil, não existindo crianças desprotegidas e a viverem na rua. Em Cuba todas as crianças constituem uma prioridade e por isso não sofrem as carências de outras espalhadas por várias partes do mundo, onde são abandonadas ou exploradas.

Quer nos círculos infantis (creches) quer nas escolas primárias, as crianças cubanas têm se beneficiado do contínuo melhoramento da sua alimentação quanto a componentes dietéticos, lácteos e proteicos, que são repartidos gratuitamente em todo o país.

A Organização das Nações Unidas (ONU) situa Cuba na vanguarda do cumprimento material do desenvolvimento humano, considerando que até 2015 será completamente eliminada a pobreza e garantida a sustentabilidade ambiental, isto apesar das dificuldades ao longo dos mais de 50 anos de bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos sucessivos governos dos Estados Unidos da América.

Embora a verdade confirmada pelas várias instituições internacionais de reconhecida credibilidade e mérito desagrade muita gente, é possível afirmar que, dos 146 milhões de crianças desnutridas em todo o mundo, nenhuma dela é cubana.

14/12/2011

Manual de justificativas pra velha mídia alegar por que deixou passar em branco o livro do Amaury


Blog do Emir




.1. Pensei que era tudo legal, por isso não demos naquele momento

2. Faltou tempo.

3. Faltou espaço.

4. Faltou vergonha.

5. O FHC disse que tudo tinha sido bem feito e era pelo bem do Brasil.

6. Já tinha resenha do livro do FHC.

7. O Serra ligou e pediu pra não dar nada.

8. Achamos que ia ficar chato pra nós.

9. Achamos que as Veronicas iam ficar muito mal.

10. Não achamos que ia dar público.

11. Deixamos pra dar mais tarde.

12. Não gostamos de matérias sensacionalistas.

13. Já tinha saído na mídia alternativa.

14. Isso é trololó do PT.

15. Se privatização fosse ruim, o FHC não teria feito.

16. Nós somos empresas privadas, gostamos disso.

17. Nós apoiamos na hora, somos coerentes, não íamos mudar de ideia só porque nos provem o contrário.

18. Deu preguiça de ler aquele troço todo.

19. Já escondemos tanta coisa, uma a mais, uma a menos...

20. As empresas estão melhor (pra nós) na mão de capitais privados.

21. Ia ficar mal pra nós.