Sob o meu olhar

Aqui neste blog, vocês poderão ver, ler e comentar a respeito do que escreverei. Por meio deste meu olhar sincero, tentarei colocar artigos e dar minha opinião sobre questões atuais como politica, problemas sociais, educação, meio ambiente, temas que tem agitado o mundo como um todo. Também escreverei poesias e colocarei poemas de grande poetas que me afloram a sensibilidade, colocarei citações e frases pequenas para momentos de reflexão.
É desta forma que vou expor a vocês o meu olhar voltado para o mundo.

24/07/2012

Nem tudo se copia e muita coisa se cria (Luciano Siqueira)


Dizem os publicitários em tom bem humorado que nada se cria, tudo se copia. Mas não é bem assim. Que seria da vida se tudo não passasse de mera repetição? Não valeria a pena viver, pois a vida que deve ser vivida é a vida reinventada, como ensina Cecília Meireles.


Pois bem. Estamos em plena campanha eleitoral e, como sempre acontece, candidatos ao Executivo municipal debatem propostas, anunciam o que se convencionou chamar programa de governo. Aqui e acolá uns acusam outros de plágio, reivindicando para si a paternidade de determinada proposição. Ou, o que dá no mesmo, reclama que o adversário copia experiências testadas em outras plagas.

Pura bobagem. Primeiro, porque as boas ideias devem ser, em tese, acolhidas por todos os que com elas estiverem de acordo. Segundo, porque experiências bem sucedidas devem sim, servir de exemplo e podem e devem ser adaptadas à realidade local.

Mas o que está no motivo da discórdia é o jogo de palavras destinado a atrair a simpatia do eleitorado. No entanto, ao se examinarem as propostas de cada um – mesmo com rotulagem semelhante -, surgem diferenças de conteúdo, muitas vezes profundas.

As diferenças qualitativas começam pela dimensão em que a proposta é apresentada. Não basta anunciar a intenção, impõe-se esclarecer o gesto: o quê, quando, onde, como, quanto custa, quais as fontes de financiamento. Isto vale, por exemplo, para a melhoria e a ampliação da rede municipal de saúde, para a requalificação da educação fundamental e assim por diante.

Demais, o contexto político que sustenta tal ou qual proposta, a depender da natureza das forças reunidas em torno dela, também faz a diferença. Por isso é comum propostas aparentemente inovadoras caírem no descaso quando se vê quem as defende – sem a menor possibilidade de realiza-las. Por outro lado, se quem a sustenta se respalda na experiência acumulada, exibe potencialidade de vitória no pleito e condições de governabilidade a posteriori, a receptividade – e a credibilidade – nem se compara.

Também pesa o modo como se gesta o programa apresentado: se urdido entre quatro paredes por técnicos que, embora competentes e bem intencionados, não dialogam com a população; ou se produzido mediante fusão entre o conhecimento e a experiência acumulada e a ausculta da população.

Finalmente, um dado de concepção que também importa, e muito. Da mesma maneira que a sociedade nova é parida na sociedade velha – numa perspectiva mais ampla da transformação social -, em geral não se deve negar integralmente o que foi feito para começar tudo de novo. Uma medida da consequência do que se propõe é a devida consideração do que terá sido construído antes, que agora pode ser reformado, requalificado e posto em bases mais avançadas.

Assim, nem tudo se copia e muita coisa pode ser criada, à luz de uma postura política renovadora e consequente e da mobilização de competências técnicas associadas ao sentimento das ruas.

Bastidores – O processo de licenciamento de Belo Monte



ESCRITO POR TELMA MONTEIRO   
SEXTA, 20 DE JULHO DE 2012

Começo a partir de hoje uma série de artigos que mostrarão alguns momentos dos bastidores dos principais licenciamentos ambientais de hidrelétricas na Amazônia. O processo de Belo Monte será o primeiro a ser esmiuçado. A segunda etapa do licenciamento de Belo Monte, que levou ao início das obras e que podem selar a destruição do rio Xingu, teve início em 2006 e, até abril deste ano, os 35 volumes somaram 6.696 páginas, sem contar as centenas de anexos e imagens.

Rever a evolução desse licenciamento ambiental conduzido pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tem me feito retroceder no tempo e olhar os fatos sob outra ótica. Vai ser possível expor alguns deles que marcaram momentos escamoteados do crivo da sociedade. Isso pode ajudar a entender como se viabiliza legalmente, no Brasil, a gestação e o nascimento de monstros em forma de projetos de desenvolvimento, que superam nossos piores pesadelos.

Bastidores não tem prazo de encerramento e vai evoluir para contar ao público como enfiaram Belo Monte e outras hidrelétricas goela abaixo da sociedade. Não será um resumo, nem uma análise, mas uma espécie de memória de passagens inusitadas ou curiosas, registradas oficialmente nos milhares de ofícios, pareceres, cobranças, justificativas, notas, questionamentos e, principalmente, em tentativas de dar um "jeitinho" na lei.

Componente indígena

A questão indígena tem sido um dos principais temas discutidos no processo de Belo Monte. Os impactos negativos e as violações dos direitos indígenas do projeto têm chamado atenção internacional e contado com uma atuação pífia da Fundação Nacional do Índio (Funai).

No Volume V, páginas 808 e 809, do processo de licenciamento ambiental pelo Ibama, está um ofício da Funai, de 22 de dezembro de 2008, assinado pelo Diretor de Assistência, Aluyzio Guapindaia. Esse ofício trata do acompanhamento do processo de licenciamento da UHE Belo Monte no que tange ao Componente Indígena, pois envolveria diferentes etnias e terras indígenas em várias fases de regularização.

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O que mais interessou nesse ofício foi o fato de a Funai classificar a análise dos impactos no Componente Indígena em três grupos distintos: o grupo 1, formado por terras indígenas que seriam diretamente impactadas e, portanto, deveriam ser objeto de trabalhos de campo e levantamento de dados primários para atender ao Termo de Referência – Terras Indígenas Paquiçamba, Arara da Volta Grande, Juruna do km 17 e Trincheira Bacajá; no grupo 2, consideradas no ofício indiretamente impactadas, cujos estudos seriam facultativos, foram elencadas as Terras Indígenas Apyterewa, Araweté do Igarapé Ipixuna, Koatinemo, Kararaô, Arara e Cachoeira Seca; no grupo 3, o ofício esclarece que as comunidades indígenas deverão ser só contempladas com Plano de Comunicação específico, apenas para a etnia Kayapó, para minimizar os impactos psico-sociais herdados do projeto anterior, Kararaô.

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O ofício, então, faz referência a um pedido feito pela Eletrobras, membro do Grupo Gestor responsável pelos estudos de impacto de Belo Monte, para remanejar a TI Trincheira Bacajá do grupo 1 para o grupo 2. Para a Funai, segundo a explicação no próprio ofício, a inclusão da TI Trincheira Bacajá no grupo 1 se dera por sua estreita ligação com o rio Bacajá que é a via de acesso ao Xingu e ao uso que as comunidades fazem dele.

A Eletrobras alegou que os estudos na TI Arara da Volta Grande já incluiriam os dados necessários de campo sobre a TI Trincheira Bacajá. A Funai, sem mais delongas, aceitou o argumento da Eletrobras.

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Esse ofício comprova que a Funai considerou que Belo Monte iria impactar diretamente três TIs. A informação oficial é preciosa e não foi divulgada na época. Isso nocauteia o discurso mentiroso do governo, da Eletrobras, das empresas e da Norte Energia, de que as terras indígenas da Volta Grande do Xingu não sofrerão impactos porque não serão inundadas pelos reservatórios ou pelas obras estruturais de Belo Monte.

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O passado dura muito tempo: as ações antidemocráticas do governo Dilma na greve nacional das federais



ESCRITO POR ROBERTO LEHER   

A postura do governo Dilma frente à greve nacional dos docentes e, mais recentemente, dos técnicos e administrativos das IFES (Instituições Federais de Ensino Superior), não pode ser compreendida como uma mera contenda trabalhista. Se a greve é tão ampla, abrangendo 58 das 59 universidades federais, e foi capaz de lograr grande adesão interna, é porque conta com a adesão esclarecida de sua base. As vozes dos professores, animadoramente polissêmicas, convergem, de distintos modos, para a necessidade de um outro horizonte de futuro para a universidade pública, abrangendo a carreira, as condições de trabalho e o padrão remuneratório como fundamentos materiais da autonomia didático-científica das universidades.

De fato, o reclamo da falta de autonomia na definição dos cursos é geral, situação particularmente tensa nos novos campi em que cursos minimalistas, fast delivery diploma (1), nos moldes do bacharelado/licenciatura interdisciplinar, proliferam provocando insatisfação entre os docentes e estudantes. O mesmo sentimento de indignação frente à perda de autonomia está presente na pós-graduação, hiper-intensificada e submetida, e ao heterônomo controle produtivista da CAPES que, cada vez mais, inviabiliza a produção rigorosa e sistemática de conhecimento e a formação verdadeiramente universitária de mestres e doutores.

A greve possui pauta precisa e objetiva: carreira, malha salarial e condições de trabalho (mais concursos e recursos para as instituições) e é luminosa: insere na agenda educacional a necessidade de crítica a esse modelo de expansão da educação superior, muito fortemente inspirado nos community colleges e no processo de Bolonha e não muito diferente da expansão na Argentina no triste período menemista.

Os “espíritos do passado” seguem oprimindo o presente

A semelhança das políticas educacionais dos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff com as de Cardoso não decorre da mera cópia, mas, antes, da força das frações burguesas dominantes no bloco de poder que vem sendo consolidado desde a primeira eleição de Cardoso e que conhece seu esplendor nos governos Lula da Silva e Dilma. Tais frações burguesas dominantes – e agora hegemônicas no bloco de poder – abandonaram qualquer traço de projeto de nação autopropelido e, por isso, consideram que a universidade funcional ao modelo não pode possuir real autonomia. Esse é o impasse de fundo da greve e que leva o governo Dilma a agir de modo semelhante ao de Cardoso.

Examinando o movimento de constituição do bloco de poder gerenciado pelos governos Lula e Dilma não surpreendente que o ex-ministro da educação Fernando Haddad tenha sido alçado à condição de candidato de Lula da Silva à prefeitura de São Paulo. Tampouco poderia surpreender o apoio de Paulo Salim Maluf ao candidato, um gesto político certamente justo. Afinal, o seu partido, herdeiro da antiga ARENA, é base do governo.

Injustiça mesmo seria o não apoio de Paulo Renato de Souza à Haddad, se vivo fosse. Afinal, o pretendente a prefeito lhe prestou sistemática homenagem ao seguir com maestria as principais diretrizes do octanato de Paulo Renato no MEC: apoiou decididamente o setor educacional privado-mercantil, oferecendo subsídios públicos que nem mesmo seu mentor educacional ousou realizar – como as isenções tributárias ao setor mercantil, por meio do PROUNI e como os imensos subsídios públicos do FIES –, despencando a taxa de juros para o comprador da mercadoria educacional, o que obviamente exige crescentes subsídios públicos para custear a diferença entre os juros referenciados na taxa SELIC e os praticados no programa.

O resultado dessas políticas foi a redução da participação das matrículas das universidades federais. Embora ampliadas em termos absolutos ao longo da década, inclusive com os referidos cursos fast delivery e com os inacreditáveis cursos de graduação a distância constrangedoramente precários, a taxa de expansão das matrículas federais foi em menor proporção do que a das privadas turbinadas pelo PROUNI e pelo FIES, passando de magros 16,6% das matrículas totais em 2001 para 14,7% em 2010 (2), em benefício das grandes corporações e fundos de investimentos que controlam os principais grupos privados.

Mas a injustiça seria incomensurável não apenas pelo que Haddad fez em prol do privado-mercantil. Afinal, a ação geral do governo Dilma na atual greve das Federais segue o modus operandi cunhado pela dupla Fernando Henrique Cardoso-Paulo Renato e que, nos anos 1990 e no início da década de 2000, gerou pesadas críticas dos petistas aos tucanos. A reiteração dos atos dos tucanos como justos e corretos não pode deixar de ser compreendida como um tardio, mas honesto, desagravo aos “injustiçados” tucanos.

De fato, por ocasião da grande greve dos professores das universidades federais de 2001, a dupla se recusou a negociar com os professores, postergando as audiências, como se fosse algo indiferente para eles o fato de que mais de 500 mil estudantes e o conjunto das universidades federais tivessem de manter 108 dias de greve para lograrem negociações efetivas (3). Após dois meses de greve, Cardoso e Souza perceberam que os docentes lutariam por sua dignidade e em prol da defesa da universidade pública, empreendendo uma cruzada repressiva de grande monta: elaboraram um decreto para coibir as greves, cortaram os salários dos professores e bloquearam o repasse de recursos do MEC para as IFES, retirando o alimento da mesa dos professores, forçando-os a regressar ao trabalho derrotados, “de joelhos”, no dizer da liminar contra o bloqueio do pagamento elaborada pelo ministro Marco Aurélio Mello do STF (4), e de cabeça baixa. Seria uma grande falta de rigor histórico ignorar que, em 2001, grande parte dos parlamentares do PT ficou ao lado dos professores, promovendo denúncias e ações que viabilizassem as negociações.

Contudo, o terreno político se move sem perder os nexos com a base econômica. As frações das classes dominantes que dirigem o bloco de poder sempre pesam nas decisões. A aliança das forças políticas que outrora estiveram nas trincheiras da oposição a Cardoso com o grande capital flexibilizou os seus posicionamentos ético-políticos em todos os domínios, conformando um processo que Gramsci denominou de transformismo. Por isso, quando onze anos mais tarde, em 17 de maio de 2012, os professores deflagraram a já mencionada robusta greve – insatisfeitos com o estilhaçamento de sua carreira, com o arrocho salarial que coloca os docentes no rodapé da remuneração dos servidores públicos federais e com a inaudita intensificação do trabalho imposta por uma expansão sem planejamento, recursos e concursos compatíveis com a expansão dos campi, das matrículas, dos cursos e da pós-graduação – o governo Dilma, com o silêncio obsequioso de Aloísio Mercadante, empreende medidas postergatórias e, como a greve se estende no tempo por sua única responsabilidade, promove medidas repressivas para derrotar os professores e técnicos e administrativos.

Com efeito, o atual governo reproduz os mesmos atos da dupla tucana (2001) na atual greve das IFES: desmarcou todas as audiências que poderiam abrir o processo de negociação e mesmo após 53 dias de greve, finge ignorar que 58 das 59 universidades estão em greve, afetando um milhão de estudantes, bem como pesquisas e atividades de extensão. A força do movimento grevista, entretanto, logrou romper o silêncio cúmplice dos grandes meios de comunicação e não foram poucas as vozes de importantes setores que se solidarizaram com a greve. Surgiu, assim, a oportunidade de repetir a história (como farsa). Faltava a medida repressiva, a mesma de Cardoso e Souza: retirar o alimento dos professores, esperando, assim, a volta ao trabalho derrotados, humilhados e cabisbaixos e sem reclamar mais dos seus magros vencimentos até 2015. E mais: que ficariam silenciados diante da refuncionalização da universidade pública federal como “escolões” que ministram aguadas pinceladas de conhecimentos aos futuros trabalhadores, possibilitando manter os fundamentos do capitalismo dependente, entre os quais a hiperexploração do trabalho.

A presidenta Dilma poderia ter examinado melhor as consequências advindas da aplicação da instrução do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG 552047, de 06/07/2012) impondo o corte de salário dos grevistas. Trata-se de uma medida inconstitucional, pois desrespeita o preceito da autonomia universitária. Conforme a memorável liminar obtida pelo Andes-SN, por ocasião do bloqueio do repasse dos salários pelo MEC na greve de 2001, o ministro Marco Aurélio de Souza, do STF, expôs, de modo raramente visto em manifestações do judiciário, que as universidades estão abrigadas institucionalmente pela Constituição Federal e, mais especificamente, pelo Art.207 da Carta. Na interpretação do ministro do STF, nenhuma instância externa à universidade pode determinar o corte de salários, a não ser o colegiado superior das instituições (5).

É possível avançar na prática da autonomia universitária

As universidades estão diante de uma oportunidade ímpar para alargar os estreitos limites da autonomia. Os colegiados superiores das universidades que, apesar da Carta de 1988, não lograram condições políticas para afirmar a autonomia constitucional podem aproveitar o ato de inaudita violência contra a autonomia universitária para se pronunciarem de modo corajoso e ousado em defesa da auto-aplicabilidade do dispositivo constitucional. Não basta, portanto, impedir a efetivação do corte salarial, mas, antes, de empreender enérgica campanha nacional contra o ato ofensivo à autonomia e em defesa do Artigo 207 da Constituição.

No momento em que a dupla FHC-Paulo Renato desferiu suas violentas ações contra a universidade e seus professores, os docentes agiram com dignidade, coragem e compromisso com a universidade e sua autonomia, fortalecendo a greve. Não resta dúvida de que o mesmo acontecerá na atual greve: certamente, a adesão será ainda maior, como ocorreu em 2001, pois os professores não se calarão diante de tal ofensiva. Caso o governo Dilma tente repetir o gesto de Cardoso, bloqueando os recursos do MEC, os acontecimentos de 2001 sugerem cuidado. Após perder as ações judiciais no STJ e no STF, com as quais o governo Cardoso queria dar legalidade ao seu ato de violência, somente restou a Paulo Renato de Souza – que ainda pretendia postergar o cumprimento das decisões judiciais determinando o imediato repasse de recursos para o pagamento dos docentes – solicitar um habeas corpus preventivo para não terminar na prisão.

Diante dos tristes e preocupantes atos de recrudescimento da violência contra a universidade que equiparam a presidenta Dilma e seu ministro da Educação a personagens com a mesma estatura política de seus antecessores, os setores democráticos não podem se omitir: exigem, de imediato, a abertura de negociações com os professores, técnicos e administrativos em greve nas universidades e na educação básica federal e que o governo não persevere na trilha obscurantista de coerções contra as instituições de ensino federais brasileiras.

Certamente, não haverá mudança de rumo na grande política do governo Dilma, mas a greve nacional das universidades pode convencer os setores mais esclarecidos de seu governo a admitir que o Estado não pode sufocar todas as instituições da República. A autonomia universitária sempre possibilitou melhor retorno social ao povo e, por isso, no lugar de olhar exclusivamente para a banca, o governo poderia escutar as universidades brasileiras e admitir que as contradições são fecundas para a democracia.

Brasil e Paraguai


ESCRITO POR MÁRIO MAESTRI   
SEXTA, 20 DE JULHO DE 2012

Fernando Lugo foi deposto, em um vapt-vupt, menos de 24 horas!, pelo parlamento conservador paraguaio, sem que o governo de Dilma Rousseff interpusesse qualquer oposição, como a realizada pela administração Lula da Silva, quando do golpe hondurenho, em 2009, contra Manuel Zelaya. E, se a oposição ao golpe em Honduras era dificultada pela distância daquele país do Brasil, as proximidades geográfica, política, econômica e social do Paraguai permitiam ao governo brasileiro garantir sobrevida ao governo constitucional ameaçado, até que a mobilização popular em curso revertesse a aventura golpista. Entretanto, nada foi feito.

O golpe no Paraguai deu-se sob os auspícios do governo Obama, que segue cumprindo a promessa de superar o abandono da América Latina pelas administrações de Bush, empantanadas no Iraque e no Afeganistão. A deposição de Fernando Lugo foi uma rasteira certa na proposta de integração latinoamericana, da qual o Brasil é o principal promotor e favorecido. Os USA antipatizam com o Mercosul, com a União Europeia etc., preferindo as discussões bilaterais, olho no olho, nas quais os grandalhões convencem facilmente os pequeninos.

Com Fernando Lugo, perdeu um governo progressista que falava muito e concedia nada, à imagem e semelhança do petismo brasileiro, em seus melhores momentos. A desculpa do luguismo para tamanha inatividade social era o parlamento de direita que, alinhado aos USA, não reconhecia a China, mantinha relações estreitas com Israel, cedia base militar aos estadunidenses e, sobretudo, vetava o ingresso da Venezuela ao Mercosul, união comercial em clara perda de dinamismo.

Ao contrário de Lula da Silva, em Honduras, Dilma Rousseff apoiou a deserção do ex-bispo mulherengo, que saiu de modo ainda mais apressado e inglório do que o de João Goulart, em abril de 1964. Afirma-se que se tratou de mais um passo da indiscutível aproximação de seu governo ao dos USA, já expressa no distanciamento do Irã, da Líbia, da Síria; na nomeação de Antônio Patriota, para ministro das relações exteriores, conhecido filo-estadunidense.

Por além das aparências, subsiste a alma profunda dos negócios. Lula da Silva resistiu à deposição de Manuel Zelaya também porque aquele país era destino privilegiado, ainda que pequeno, das exportações manufaturadas do Brasil. Tentou inutilmente impedir a entrada do raposão em galinheiro que pensava seu. Por sua vez, Dilma Rousseff apoiou a entrega imediata do poder por Fernando Lugo e promoveu, com ainda maior rapidez, a suspensão provisória do Paraguai no Mercosul e a introdução da Venezuela como quinto membro daquele organismo, em ação igualmente prenhe de consequências econômicas.

Com as informações de que dispomos, é ainda difícil saber a sequência exata das decisões. Teria, desde o primeiro momento, prevalecido o princípio de que valia menos um Fernando Lugo, em fim de mandato, do que uma Venezuela no Mercosul, para sempre? Teria se tratado de um apoio preventivo dilmista aos brasiguaios, parte do agronegócio nacional, locomotiva atual das exportações brasileiras, associado a empurrão nos segmentos industrialistas, em processo de desindustrialização tendencial? A Venezuela, país produtor de energia, é forte importador de manufaturados. Maná dos céus, portanto, para a indústria brasileira e argentina. Seu ingresso no Mercosul torna a aliança regional mais atrativa para os países que se encontram fora dela. Ou apenas se fez da “necessidade, virtude”, respondendo a rasteira com poderoso rabo-de-arraia.

Trata-se, em todo caso, de uma aposta perigosa. Os USA avançam a Aliança do Pacífico, entre o Chile, Peru, Colômbia, México, claramente em oposição ao Brasil, que aproxima a Venezuela e fortalece o Mercosul, enquanto vê afastar-se o Paraguai, nação estratégica de sua fronteira mais candente, da qual depende parte do fornecimento de sua energia elétrica.

Sobretudo, permite que o Império golpeie com sucesso o governo progressista latinoamericano mais frágil, precisamente quando vivia verdadeiro sufoco social, devido ao massacre de trabalhadores sem terra, sua principal base de apoio. Fortalece, portanto, a ameaça aos governos boliviano, equatoriano, venezuelano e, até mesmo, argentino. E o boi, como se diz aqui no Rio Grande do Sul, se come aos pedaços!

GRAMÁTICA... SEMPRE É BOM SABER


UMA LIÇÃO TÃO BEM PREPARADA...  rsrsrsrs 
 
 
Pena que não podemos mostrar aos  alunos. Num instante eles iriam entender.

Filho da putaé adjunto adnominal, quando a frase for:
            "Conheci um político filho da puta".
- Mas se a frase for:
             "O político é um filho da puta", daí, é predicativo.
- Agora, se a frase for:
           "Esse filho da puta é um político", é sujeito.
- Porém, se o cara aponta uma arma para a testa do político e diz:
           "Agora nega o roubo, filho da puta!" - daí é vocativo.
- Finalmente, se a frase for:
           "O ex-ministro..., aquele filho da puta, desviou o dinheiro das estradas" daí, é apôsto.
Que língua a nossa, não?!
Agora vem o mais importante para o aprendizado:
- Se estiver escrito:
         "Saiu da presidência em janeiro e ainda se acha presidente."
O filho da puta é sujeito oculto... 
 

22/07/2012

Não somos o avesso do jovem que fomos





Um dia descobrimos que não nos transformamos em quem sonhávamos ser e isso não tem nada de errado. 

A juventude é uma vertigem. As cartas ainda não foram dadas, os dados não foram lançados. O leque das possibilidades é imenso e sedutor. Somos fortes, belos e não temos medo da morte por isso sonhamos o impossível, o improvável e o utópico. Benditos sejam os dias e os anos da nossa juventude: eles nos dão uma dimensão de poder e invulnerabilidade que nunca mais teremos. 

Eternos sempre serão os dias e os anos da nossa juventude porque o tempo não existia. Tínhamos tanto tempo que desperdiçávamos ou desdenhávamos das horas como se elas fossem inesgotáveis. 

O tempo não era contado muito pelo contrário, na nossa avidez de tudo sentir e viver, queríamos que ele voasse. As horas não eram preciosas pois não eram raras, nem caras. Intactos sempre serão os dias da nossa juventude: só então fomos eternos.

Às vezes nos lembramos daquela arrogância maravilhosa e sentimos saudade da experiência da plenitude bruta e gratuita, do vigor físico e do idealismo heróico. No entanto, não conheço nenhum "adulto" razoavelmente bem resolvido que quisesse voltar a ser jovem - a não ser ter "juntas e vista" de jovem como diria João Ubaldo. 

Descobrimos que se não somos especiais como pensávamos ser isso não é triste nem nos transforma em perdedores. É só vida real. Descobrimos que se não somos geniais ou revolucionários somos nossos próprios heróis. Descobrimos que não transformamos o mundo mas tocamos pessoas. Descobrimos que o possível é mais complexo que o impossível porque o possível está à nossa frente não no mundo das idéias. Descobrimos que o projeto de paz mundial não é viável sem paz interior. Descobrimos que mesmo sem prêmios nóbeis, fortuna ou fama nos realizamos em profissões e atividades comuns e isso não tem nada a ver com mediocridade. 

Não somos o avesso do jovem que fomos: somos quem pudemos ser e se fazemos o nosso melhor, se lutamos com coragem nossas pequenas lutas, se defendemos com dignidade nossas bandeiras, se amamos com generosidade nossos amigos, pais e filhos, se respeitamos nossos semelhantes e a nós mesmos somos com certeza especiais, de um jeito muito real. 

Um dia descobrimos com serena maturidade que não nos transformamos em quem sonhamos ser na juventude mas em alguém muito melhor.


Los niños invisibles (Juan Gelman)


Hay estadísticas de todo tipo en cualquier país, pero una poco aflora
públicamente entre las miles que cada año se compilan en EE.UU.: la de
los niños sin techo del país, 1,6 millones en el año 2010, es decir, uno de
cada 45, y un 38 por ciento más que en el 2007, según una investigación
del National Center on Family Homelessness (NCFC). Nada mal para el país
más poderoso del planeta.
El hecho cambia imágenes del sin techo en EE.UU. No se trata ya de
un hombre solo y andrajoso que pide limosna en una esquina: el segmento
de homeless que aumenta más rápidamente es de las familias con hijos.
Tampoco de un haragán: unos 4 millones de familias perdieron su vivienda
desde comienzos del 2007 a comienzos del 2012, informó The New York Times
, al compás del crecimiento de la desocupación.
En el 2007 explotó el globo hipotecario que condujo a la crisis económica
mundial que hoy castiga al mundo. Ese año, 2,2 millones de deudores
hipotecarios perdieron su departamento o casa en EE.UU. y un
millón en el 2010. Y aun los que trabajan con un salario exiguo no
siempre pueden pagar un alquiler. En Orlando, el alquiler promedio
de un departamento con dos dormitorios exige que el inquilino gane
18 dólares la hora. Una pareja que labore 40 horas por semana no
la puede sufragar con un salario mínimo de 7,67 dólares la hora.
En el estado de California hay que ganar 26 dólares la hora para
alquilar esa clase de departamento, pero el salario mínimo que perciben
muchos es de no más que 8 dólares la hora.
No es sólo el desempleo, entonces.
El problema de los sin techo no tenía a comienzos de la década de
los ’80 la calidad de endemia que alcanzó después. La tasa de familias
neoyorquinas con hijos pequeños echadas a la calle aumentó un 500
por ciento entre 1981 y 1995 (www.eric.ed.gov, enero 1996) y el
Departamento de Vivienda y Desarrollo Urbano registró en su
evaluación correspondiente al 2010 que el 35 por ciento de los
homeless del país dormía en albergues del gobierno y
de entidades caritativas (//portal.hud.gov, 14-6-11).
Ralph da Costa-Núñez, que fue funcionario del ex alcalde de Nueva
York Ed Koch, señaló al ex presidente Ronald Reagan como el culpable
de la veloz expansión del fenómeno: “Anuló todos los programas sociales
que ayudaban a los pobres. ¿A dónde iban a ir? A la calle, a los albergues.
Un día le dije al alcalde Koch que lo que empezaba así iba a permanecer”.

. En tanto, Reagan mistificaba la cuestión. “Lo que tenemos en este país
 –declaró en el programa televisivo TV Good Morning America
el entonces presidente de EE.UU.– es un problema que siempre
tuvimos, incluso en los mejores tiempos; tal vez somos ahora
más conscientes de su existencia, y es la gente que duerme a la
intemperie, los sin techo que no tienen techo, se podría decir, por
elección” (//abc.go.com, 31-1-84). Sí, desde luego, cómo no.
Bill Clinton continuó estas políticas de su predecesor republicano y
sus reformas en materia de pobreza no tomaron muy en cuenta a
las mujeres y los niños. La ley de ayuda temporaria a las familias
necesitadas que se promulgó durante su mandato imponía rigurosas
exigencias para acceder a la asistencia y ésta, como lo indica el
nombre de la ley, era de limitada duración.
Los niños homeless, en este marco, devienen “los marginados más
jóvenes de EE.UU.”, señala el informe del NCFC. “Se han convertido
gradualmente –agrega– en una parte descollante de un Tercer Mundo
que está emergiendo en nuestra nación. A pesar de que su número
crece, los niños sin techo son invisibles para la mayoría de
nosotros, no tienen voz ni audiencia. Sin una cama que puedan
llamar propia, han perdido seguridad, privacidad y el confort hogareño,
así como a sus amigos, pertenencias, mascotas, rutinas reposadas
y a sus comunidades. Estas pérdidas producen una experiencia de
vida perturbadora que inflige heridas profundas y duraderas.”
Seis estados solamente –de los 50, más el distrito federal, que
constituyen la federación estadounidense– han desarrollado
estrategias para enfrentar la situación. Otros han diseñado proyectos
decenales para resolverla por completo, pero su eficacia está por
verse. Se olvida, además, que los niños sin techo pasan hambre y son
más proclives a contraer infecciones respiratorias y digestivas, asma,
tuberculosis y otras enfermedades. Su desamparo no les permite
asistir a clase con regularidad: los cambios de ubicación de sus familias
son frecuentes. En este caso, mucho más que en otros y por otras razones,
se aplica lo dicho alguna vez por Jean Cocteau: “La infancia sabe lo que quiere.
Quiere dejar atrás la infancia”.



Tomado de Página 12: http://www.pagina12.com.ar/diario/contratapa/13-199246-2012-07-22.html