Poetas pensam, traçam destinos.....
alguns dizem que eles mentem,
mas são.....arquitetos de sonhos,
com um compromisso de alma
de inspirar o viver.
São seres apaixonados,
revivendo o amor "demodé",
exageram o sentir em palavras,
conseguindo até mesmo,
em simples versos....morrer.
Para tanto
expõem-se do avesso
e serão sempre sobreviventes,
pois na busca de um feliz futuro,
vivem, em paixão, o presente.....
Sob o meu olhar
Aqui neste blog, vocês poderão ver, ler e comentar a respeito do que escreverei. Por meio deste meu olhar sincero, tentarei colocar artigos e dar minha opinião sobre questões atuais como politica, problemas sociais, educação, meio ambiente, temas que tem agitado o mundo como um todo. Também escreverei poesias e colocarei poemas de grande poetas que me afloram a sensibilidade, colocarei citações e frases pequenas para momentos de reflexão.
É desta forma que vou expor a vocês o meu olhar voltado para o mundo.
É desta forma que vou expor a vocês o meu olhar voltado para o mundo.
02/02/2012
O Lápis
O menino observava seu avô escrevendo em um caderno, e perguntou:
- Vovô, você está escrevendo algo sobre mim?O avô sorriu, e disse ao netinho:- Sim, estou escrevendo algo sobre você. Entretanto, mais importante do que as palavras que estou escrevendo, é este lápis que estou usando. Espero que você seja como ele, quando crescer.O menino olhou para o lápis, e não vendo nada de especial, intrigado, comentou:- Mas este lápis é igual a todos os que já vi. O que ele tem de tão especial?- Bem, depende do modo como você olha. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir vivê-las, será uma pessoa de bem e em paz com o mundo – respondeu o avô.- Primeira qualidade: Assim como o lápis, você pode fazer coisas grandiosas, mas nunca se esqueça que existe uma “mão” que guia os seus passos, e que sem ela o lápis não tem qualquer utilidade: a mão de Deus.- Segunda qualidade: Assim como o lápis, de vez em quando você vai ter que parar o que está escrevendo, e usar um “apontador”. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas ao final, ele se torna mais afiado. Portanto, saiba suportar as adversidades da vida, porque elas farão de você uma pessoa mais forte e melhor.- Terceira qualidade: Assim como o lápis, permita que se apague o que está errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos trazer de volta ao caminho certo.- Quarta qualidade: Assim como no lápis, o que realmente importa não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro dele. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você. O seu caráter será sempre mais importante que a sua aparência.- Finalmente, a Quinta qualidade do lápis: Ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida deixará traços e marcas nas vidas das pessoas, portanto, procure ser consciente de cada ação, deixe um legado, e marque positivamente a vida das pessoas.
Sabedoria de Avô(ó) - Autor desconhecido
.
Quando eu for bem velhinha(o), espero receber a graça de, num dia de domingo, me sentar na poltrona da biblioteca e, bebendo um cálice de vinho, dizer aos meus netos:
- Queridos, venham cá. Fechem a porta com cuidado e sentem-se aqui ao meu lado. Tenho umas coisas pra lhes contar.
E assim dizer, apontando o indicador para o alto:
- O nome disso não é conselho, isso se chama colaboração!
Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas conclusões. E agora, do alto dos meus 82 anos, com os ossos frágeis a pele mole e os cabelos brancos, minha alma é o que me resta saudável e forte. Por isso, vou colocar mais ou menos assim:
- É preciso coragem para ser feliz. Sejam valentes.
- Sigam sempre seu coração pois, para onde ele for, seu sangue, suas veias e seus olhos também irão.
- Satisfaçam seus desejos.
- Entendam que o tempo é um paciente professor que irá lhes fazer crescer, mas a escolha entre ser uma grande pessoa ou uma pessoa grande, vai depender só de vocês.
- Tenham poucos e bons amigos.
- Tenham filhos.
- Tenham um jardim.
- Aproveitem sua casa, mas viagem para Fernando de Noronha, Barcelona e Austrália.
- Cuidem bem dos seus dentes.
- Experimentem, mudem, cortem os cabelos. Amem. Amem pra valer, mesmo que ele(a) sejam de poucas posses .
- Não corram o risco de envelhecer dizendo "ah, se eu tivesse feito... " Vai que o parceiro ganhe na loteria" - tudo é possível, e o futuro é imprevisível.
- Tenham uma vida rica de vida! Vivam romances de cinema, contos de fada e casos de novela. "
- Façam sexo, mas não sintam vergonha de preferir fazer amor.
- E sempre tomem conta da sua reputação, ela é um bem inestimável. Porque as pessoas comentam, reparam e, se vocês derem chance, elas também inventam detalhes desnecessários.
- Se forem se casar, façam por amor. Não façam por segurança, carinho ou status.
- A sabedoria convencional recomenda que vocês se casem com alguém parecido com vocês, mas isso pode ser um saco! Prefiram a recomendação da natureza, que com a justificativa de aperfeiçoar os genes na reprodução, sugere que vocês procurem alguém diferente de vocês. Mas, para ter sucesso nessa questão, acreditem no olfato e desconfiem da visão. É o seu nariz quem diz a verdade quando o assunto é paixão.
- Façam do fogão, do pente, da caneta, do papel e do armário, seus instrumentos de criação. Leiam. Pintem, desenhem, escrevam. E, por favor, dancem, dancem, dancem, cantem, cantem, cantem até o fim, se não por vocês, façam por mim.
- Compreendam seus pais. Eles os amam para além da sua imaginação, sempre fizeram o melhor que puderam, e sempre farão.
- Não cultivem mágoas, porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida, é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza.
Era só isso meus queridos. Agora é com vocês.
Por favor, encham mais uma vez minha taça e me contem: como vão voces?
(Isso vale para todos nós, pais, filhos, netos e amigos...)
ABSURDO ( Fernando Pessoa)
A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos.
O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.
Acis y Galatea (Jaime Siles)
Ese cuerpo labrado como plata,
ese oro, esa túnica, esa piel,
ese color que tiñe la escarlata
corola del pistilo de un clavel;
ese cielo de cárdenos espacios,
esa carne que tiembla en el vaivén
de las rodillas y de los topacios
nos dicen que este cuadro es de Poussin.
El resplandor del sol en los minutos
del gris del agua sobre el gouache del gres,
el césped de corales diminutos
que puntean las puntas de sus pies;
el placer de los vicios absolutos,
el maquillado estambre, el cascabel
de sus tacones, los ojos resolutos
disueltos en vidrieras de bisel;
las dunas de su cuerpo y esas manos
que la luz difumina en el papel
de este poema dicen que eran vanos
ese oro, esa túnica, esa piel.
La chica que los mira aquí a mi lado
es más real que el lienzo y que el pincel:
hace un gesto de geisha emocionado,
más certero, más cierto, más rimado
de rimmel que la estrofa del clavel.
El cuadro del museo que miramos
no está en la sala, ni en el Louvre, ni en
la Tate Gallery, el Ermitage o Samos,
y no es –ni por asomo- de Poussin.
El cuadro del museo que miramos,
Acis y Galatea, ellá y él,
somos nosotros mismos mientras vamos
-ojo, labio, boca, lengua, mano-
sobre la carne del amor humano
ensortijando flores, cuerpos, ramos
de un verano mejor que el del pincel.
ese oro, esa túnica, esa piel,
ese color que tiñe la escarlata
corola del pistilo de un clavel;
ese cielo de cárdenos espacios,
esa carne que tiembla en el vaivén
de las rodillas y de los topacios
nos dicen que este cuadro es de Poussin.
El resplandor del sol en los minutos
del gris del agua sobre el gouache del gres,
el césped de corales diminutos
que puntean las puntas de sus pies;
el placer de los vicios absolutos,
el maquillado estambre, el cascabel
de sus tacones, los ojos resolutos
disueltos en vidrieras de bisel;
las dunas de su cuerpo y esas manos
que la luz difumina en el papel
de este poema dicen que eran vanos
ese oro, esa túnica, esa piel.
La chica que los mira aquí a mi lado
es más real que el lienzo y que el pincel:
hace un gesto de geisha emocionado,
más certero, más cierto, más rimado
de rimmel que la estrofa del clavel.
El cuadro del museo que miramos
no está en la sala, ni en el Louvre, ni en
la Tate Gallery, el Ermitage o Samos,
y no es –ni por asomo- de Poussin.
El cuadro del museo que miramos,
Acis y Galatea, ellá y él,
somos nosotros mismos mientras vamos
-ojo, labio, boca, lengua, mano-
sobre la carne del amor humano
ensortijando flores, cuerpos, ramos
de un verano mejor que el del pincel.
A maravilhosa revolução haitiana
Blog da Boitempo
“Em 1789, a colônia francesa das Índias Ocidentais de São Domingos representava dois terços do comércio exterior da França e era o maior mercado individual para o tráfico negreiro europeu. Era parte integral da vida econômica de época, a maior colônia do mundo, o orgulho da França e a inveja de todas as outras nações imperialistas. A sua estrutura era sustentada pelo trabalho de meio milhão de escravos.”
“Em agosto de 1791, passados dois anos da Revolução Francesa e dos seus reflexos em São Domingos, os escravos se revoltaram. Em uma luta que se estendeu por 12 anos, eles derrotaram, por sua vez, os brancos locais e os soldados da monarquia francesa. Debelaram também uma invasão espanhola, uma expedição britânica com algo em torno de 60 mil homens e uma expedição francesa de semelhantes dimensões comandada pelo cunhado de Bonaparte. A derrota da expedição de Bonaparte, em 1803, resultou no estabelecimento do Estado negro do Haiti, que permanece até o dia de hoje.”
“Essa foi a única revolta de escravos bem sucedida da História…”
Nem bem chegou por aqui, Cristóvão Colombo louvou rapidamente a Deus e saiu a procurar ouro na ilha de São Salvador. Os nativos, pacíficos e amistosos, lhe indicaram o Haiti, lugar rico do metal amarelo. Os espanhóis tomaram indígenas para sua proteção, introduziram o cristianismo, o trabalho forçado nas minas, o assassinato, o estupro, os cães de guarda , doenças desconhecidas e a fome forjada (pela destruição dos cultivos para matar os nativos de fome). “Esses e outros atributos das civilizações desenvolvidas reduziram a população nativa de estimadamente meio milhão, ou talvez um milhão, para sessenta mil em quinze anos.”
“Os negros” – dizia um relato de 1789 – “eram injustos, cruéis, bárbaros, semi-humanos, traiçoeiros, pérfidos, ladrões, beberrões, arrogantes, preguiçosos, sujos sem-vergonhas, furiosamente ciumentos e covardes.” Essa visão servia para justificar o tratamento dado aos negros pelos colonizadores.
Porém foram esses negros que lideraram a revolução haitiana de independência contra os franceses. O que eles fizeram foi simplesmente aplicar ao Haiti o que os franceses faziam no seu país. Mas caiu sobre eles a maior das violências – da França, da Espanha e da Inglaterra. Revelando como a liberdade, a igualdade e a fraternidade não valiam para os povos não europeus. A própria escravidão nunca tinha sido incluída nos ideais da revolução francesa. Ela se referia aos franceses, aos servos da gleba. O eurocentrismo que se instalava não olhava para além dos brancos, não incluía a suas vítimas, aquelas sobre quem recaia a exploração e a opressão que tornava possível que os europeus pudessem ser “livres”.
Depois de finalmente derrotados militarmente, os haitianos pagaram caro o preço da sua audácia. Foram vítimas privilegiadas dos colonizadores, espoliados, oprimidos, invadidos, humilhados. Estabeleceram-se dívidas milionárias, pendentes até hoje, com as quais o Haiti pagaria os danos causados aos colonizadores.
Em 1913, um novo capítulo da opressão se abateu sobre o Haiti: alegando a necessidade de saldar as dívidas e reestabelecer a ordem, fuzileiros navais norte-americanos invadiram o país, o povo resistiu e a invasão foi frustrada. Porém, décadas mais tarde, depois de consolidar seu controle sobre a economia haitiana, os EUA colocaram no poder a dinastia Duvalier – primeiro François, o Papa Doc, depois seu filho, Jean-Claude, o Baby Doc, que governaram mediante uma ditadura de quase 30 anos – 1957 a 1986 – consolidando o Haiti como o país mais pobre do continente.
Quando finalmente uma rebelião popular derrubou o regime de Duvalier, depois de alguns anos de instabilidade, o padre Bertrand Aristide, líder popular, ligado à teologia da libertação, foi eleito presidente em 1990. Tinha as melhores condições para conduzir o Haiti para um regime democrático. No entanto, no ano seguinte, foi derrubado por um golpe militar de oficiais ligados ao velho regime duvalierista.
Aristide se refugiou nos EUA e voltou ao país conduzido pelas tropas norte-americanas, para completar seu mandato, em 1994. Em 1996 conseguiu eleger um político vinculado a ele como presidente e voltou a esse cargo em 2001.
Mas o Aristide que retornou dos EUA já era diferente. Colocou em prática políticas neoliberais, usou a repressão contra movimentos populares, o país foi invadido pelo tráfico de drogas e por bandas violentas. Os EUA e a França se aproveitaram da desordem instalada no país e da incapacidade do governo para se impôr (Aristide havia terminado com as FFAA, alegando seu caráter duvalieristas, sem colocar no lugar outras forças militares), para invadir o país e depôr Aristide.
Diante dessa situação, esses dois países apelaram a que forças militares latino-americanas os substituíssem na ocupação do Haiti. Sob a direção do Brasil, tropas de vários países do continente – Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Guatemala, Paraguai, Peru e Uruguai, a que se somaram tropas de países de outros continentes – passaram a compôr a Missão da ONU no Haiti desde o golpe militar.
Não bastasse tudo isso, o Haiti ainda sofreu um terrível terremoto há dois anos, cujo epicentro era no centro de Porto Príncipe. O resultado desse conjunto de fatores é catastrófico. Devastado em termos naturais, com suas terras sem condições de serem utilizadas pela sua deterioração ambiental, com parte importante da sua população no exílio – principalmente nos EUA e no Canadá -, com o Estado destruído, com países que chegam para dilapidar ainda mais o que resta de empresas estatais, com um Fundo de recursos arrecadados sob a presidência inepta do Príncipe Charles e de Bill Clinton – o Haiti continua vivendo na desesperança.
Um dos livros mais lindos que eu li é Os jacobinos negros, de C.L.R. James, que conta uma das mais extraordinárias epopeias vividas pelos povos latino-americanos – a revolução haitiana.
A paixão no tempo do Big Brother
Blog da Boitempo
Eu tenho visto, e as pessoas que me cercam também, aqui e ali jovens que se agarram, e se apertam, e se sufocam aos beijos em público. Agem assim nas filas dos supermercados, nos transportes coletivos, nas feiras livres, nos teatros, em todos os lugares abertos à visitação da gente. Até parece haver uma onda, um vagalhão de ternura que arrasta e assalta os corpos de nossos jovens. É como se o amor estivesse no ar. É como se uma ardente atração fizesse com que se friccionassem amorosa, irresistível e interminavelmente. Como se amam! dizemos de início. Que paixão irreprimível! dizemos mais adiante. Que despudor! dizemo-nos enfim, em silêncio.
A evidência manda dizer que somente observa jovens quem não mais é um deles. Mas consideremos que o não ter mais 20 anos de idade nos deixa mais à vontade, permite à gente refletir melhor sobre os que estão no fogo. Então nos perguntamos: que mal há na exibição da necessidade de uma pessoa que exige, urgente, outra? O escândalo que sentimos diante de tais exibições não é já manifestação de conservadorismo? Não é já, como nos diria um jovem, a expressão de uma inveja, porque já não mais sentimos o fogo doce e vital da paixão? Então nós, que não temos mais 20 anos, mas nem por isso alcançamos o tempo da invenção da lâmpada elétrica, respondemos. Mas aos poucos, como convém a nossas pausas de respiração.
Achamos que assim como na organização da vida social, há fronteiras entre o público e o privado. Isso se estende ao reino das paixões, cremos. Existem as públicas, necessária e indissoluvelmente públicas, como a expressão do pensamento em palavras, em símbolos, em imagens, em música. Um poema, um romance, um relato, ainda que expressem a maior intimidade, aquela mesma que em palavras não saberíamos expressar no cotidiano, esse poema, essa criação, ainda que atinja o âmago do nosso ser, é por necessidade e realização um expressar para o mundo. Que infelicidade seria, para todos nós, a poesia de Mario Benedetti cercada para sempre entre quatro paredes. Que tristeza vil nos alcançaria se não soubéssemos do verbo de João Cabral. Paixões assim trazem o destino de se tornar públicas. E elas só se realizam na medida mesmo em que as conheçam toda a gente. A criação, quando guardada, fechada por injustificáveis escrúpulos ou descaso, ainda não atingiu a sua força. É botão sem florescer.
O que é diferente, acreditamos, das paixões dos indivíduos que se realizam neles mesmos. Que importa ao distinto público a maneira como amamos a amada na intimidade da nossa cama? Que importa à vida de toda a gente a expulsão de humores, vale dizer, o orgasmo do nosso sexo? Se não fazemos disso a expressão de algo menos físico, se não fundamos nesse ato, perdoem o termo, uma ontologia, que importância tem para o mundo? Um cínico nos diria, com evidente inversão do sentido da pergunta, que muito importa o mostrar o que é bom: “O que é bom é para ser mostrado”. E que o beijar, o abraçar, o devorar, são atos naturais, e, portanto, ao serem mostrados, é bom. Ao que responderíamos: existem outros atos naturais, intestinos, mas que nem por isso devem ou podem em público ser mostrados. É certo que ao respondermos assim, descemos ao rés do chão. Embora a isto nos leve o nível da objeção, diria melhor, da abjeção dos cínicos, tentemos subir um pouco acima do piso. Queremos dizer:
O amor tem um significado que é a própria expressão do humano. Ele se ferramenta, digamos assim, ele transforma em ferramentas a seu serviço tudo o que de bom e de mau ao longo de uma vida, inteligência e sensibilidade somos. O tocar das mãos, dos dedos das mãos, o viajar juntinhos, em silêncio, conversando sem palavras, não é já uma eloquência do sentimento? “Nós nos queremos”, insinuam-se os casais com um ser além até da consciência. Se o amor é tão íntimo, para quê demonstrá-lo?
Mas alto! Alto lá! Não podemos, em tempos tão raivosamente ferozes, ser tão ternos. É tempo de fogo, de chumbo e de sangue, de catchup, de fast food, de correr e viver veloz, tudo pode sumir num instante, e não podemos esperar de casais jovens o conhecimento de anos. Em obediência, estacamos. Então fazemos a volta, até o ponto mais preciso da paixão. Cheguemos àquele sentimento avassalador que não respeita modos, regras e conveniências. E à sua mostra.
Haveria em tais demonstrações de afeto uma genuína paixão? Sim, concedamos, se não por método, pelo menos em respeito ao princípio de que sem prova não cabe imputar crime a ninguém. Sim, concedamos: a julgar pelas exteriorizações, os jovens estão cada vez mais apaixonados. Que bom! Mas … permitam-nos a reflexão, esse mal da idade. Essa genuína paixão não estaria vestida do exibicionismo do Big Brother? Vestida, queremos dizer, em roupa que se apresenta ao público, e de tal maneira que, ao ser retirada, desvela um rei nu sem nenhuma majestade. Sim, essa vestimenta, hipotética, é de ouro, e reluz, pelo que se proclama à vista de todos nós. É um Big Brother da paixão, essa roupa. Uma exibição onde os portadores mais simplórios viram celebridades. Sob que atos? Ora, pela exibição do que fazem na cama, no edredom, para toda a gente. É o próprio espetáculo do afeto. Eles não se dizem (nem têm necessidade de dizer) eu te amo. Os lençóis lhes falam, por eles. Se não há uma cama nos supermercados, o que se há de fazer? Se as palavras lhes faltam, então as realizam com a mais brava (ia dizer bravata) das eloquências: agem, com o furor das sugadas no cangote, do amassar dos seios, diante dos olhos de todo nós, numa televisão ao vivo. Nós, que viramos os grandes irmãos, os voyeursbasbaques. “Então isto é a paixão e eu não o sabia”, dizemo-nos, como um novo Monsieur Jourdain, de Molière.
Refeitos da descoberta, acordamos. Então um demônio nos sopra aos ouvidos que há uma vulgarização do afeto. E vulgar, acrescenta o demo, não somente no sentido de divulgar, de tornar público, ou no significado de que o sentimento da paixão é comum a todos os homens. Mas no sentido mais corriqueiro, vulgar, de algo que desceu de uma instância mais digna, que se acanalhou, sorri o demo. Se o amor, se a nossa paixão é uma pepita guardada, rara, única, para quê exibi-la como um novo-rico, como um bárbaro? Mas aí, a acreditar nessa pergunta-afirmação, entraríamos no terreno que nega ao sentimento que se exibe o status de uma genuína paixão. Façamos então uma última pausa, para concluir.
Imaginemos esses casais, se prosperarem até uma união mais duradoura, imaginemos esses jovens quando as dificuldades da vida baterem à sua porta. Queremos dizer, imaginemo-los naquele provável tempo em que o dinheiro para a diversão lhes faltar. Mais grave, imaginemo-los naquele tempo em que a doença lhes bater no domicílio, sem aviso e sem agenda. Pior do que tudo, imaginemo-los naquele tempo em que o fogo da paixão tiver queimado o vigor das melhores forças. Como reagirão? Se o amor se foi, se a paixão queimou até as cinzas, o que é o mesmo que dizer: se os corpinhos sarados perderam a forma, se os apertos, por morte do exterior estímulo, não mais se dão, se um beijo, num supremo esforço, não mais substitui a palavra e o sentimento amor….
“Corta”, diz-nos o diabo. Sabemos porque ele pula e nos interrompe. Esse final não está no Big Brother.
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