Sob o meu olhar

Aqui neste blog, vocês poderão ver, ler e comentar a respeito do que escreverei. Por meio deste meu olhar sincero, tentarei colocar artigos e dar minha opinião sobre questões atuais como politica, problemas sociais, educação, meio ambiente, temas que tem agitado o mundo como um todo. Também escreverei poesias e colocarei poemas de grande poetas que me afloram a sensibilidade, colocarei citações e frases pequenas para momentos de reflexão.
É desta forma que vou expor a vocês o meu olhar voltado para o mundo.

06/12/2011

A Opinião Pública (Fernando Pessoa) 1915


Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coerência , a convicção, a certeza são, além disso, demonstrações evidentes - quantas vezes escusadas - de falta de educação. è uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é macá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.
Uma criatura de nervos modernos de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações reigiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.
Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm sobretudo, quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variãrão, como é de entender, consonte esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, é monarquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos de anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo, uma invenção de louco quando, ante uma solidão do mar, ele não souber de mais do que da “Odisseia”.
Convições profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.
Quando é que despertaremos para a justa noção de que a política, a religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética - a estética dos que ainda não a podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumada às suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.

Seja O Que For ( Alberto Caeiro)



Seja o que for que esteja no centro do Mundo,

Deu-me o mundo exterior por exemplo de Realidade,

E quando digo «isto é real», mesmo de um sentimento,

Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,

Vejo-o, com uma visão qualquer fora e alheio a mim.

Ser real quer dizer não estar dentro de mim.
Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade.
Sei que o mundo existe, mas não sei se existo.
Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono da casa branca.
Creio mais no meu corpo do que na minha alma,
Porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade.
Podendo ser visto por outros,
Podendo tocar em outros,
Podendo sentar-se e estar de pé,
Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Existe para mim – nos momentos em que julgo que efectivamente existe
Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo.
Se a alma é mais real
Que o mundo exterior, como tu, filósofo, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade?
Se é mais certo eu sentir
Do que existir a cousa que sinto –
Para que sinto
E para que surge essa cousa independentemente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível
Para que me movo com os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.
Cousa por cousa, o Mundo é mais certo.
Mas por que me interrogo, senão porque estou doente?
Nos dias certos, nos dias exteriores da minha vida,
Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim,
Mas) tão sublimemente não-meu.
Quando digo «é evidente», quero acaso dizer «só eu é que o vejo»?
Quando digo «é verdade», quero acaso dizer «é minha opinião»?
Quando digo «ali está», quero acaso dizer «não está ali»?
E se isto é assim na vida, por que será diferente na filosofia
Vivemos antes de filosofar, existimos antes de o sabermos,
E o primeiro facto merece ao menos a precedência e o culto.
Sim, antes de sermos interior somos exterior.
Por isso somos exterior essencialmente.
Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo.
Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma filosofia,
Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,
E isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu?

A literatura salva também



Por Urariano Mota.
Nos tempos em que pensei ser professor, sempre tentei dizer a jovens estudantes que a literatura era fundamental na vida de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Primeiro porque a literatura ministrada a eles, em outras aulas, destruía todo o gozo de viver. Os mestres, profissionais ou burocratas, ensinavam-lhes a anti, a literatura para antas, com listas de nomes, datas e resumos de obras, nada mais. Em segundo lugar eu não fecundava porque o valor do sentimento, o sentido de uma rosa, o cântico de amor ou o desajuste de pessoas em uma sociedade corrupta nada significava para as tarefas mais práticas, que se impunham.
– O que eu ganho com isso, professor?
E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha a quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas quando o petardo de uma frase de Joaquim Nabuco ganhava a zombaria de toda a gente. Eu sorria e me punha a gaguejar coisas estapafúrdias do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.
– O que eu ganho com isso, professor?
Quando essa pergunta me era feita por jovens da periferia, excluídos, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta, porque não me via em suas condições e rostos. Mas aos periféricos, não. Eu passava a ser atingido nos meus domínios, na minha gente, porque eu olhava os seus rostos e via o meu, no tempo em que fui tão perdido e carente quanto qualquer um deles. Então eu não sorria. Aquilo, do meu semelhante, me acendia um fogo, um álcool vigoroso, e eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência. Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa, algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Mas tudo bem, eu me dizia, que se dane o nome, vence a literatura.
No entanto, agora refletindo enquanto escrevo, descubro que ainda assim havia uma grandiosa derrota nessa vitória de extremo recurso. Eu, o professor, falhava como professor. Quero dizer, eu não acendia a chama em seus corações como um fogo de pentecostes, com o calor de que a literatura é um valor permanente, alto e tão alto que por vezes parece substituir a própria vida. Quero dizer, para ser mais preciso: eu não fazia aqueles adolescentes atirarem-se aos livros, que seriam uma casa, um céu, um amigo, uma amiga, um amor, a namorada. Os jovens paravam por momentos diante do relato e depois mudavam de assunto, para outra coisa mais urgente. Afinal, jovens precisam comer, vestir, beber e pegarem em namoradas mais concretas que um soneto de Camões.
O professor falhava porque prática, grosseira e opressora era a onipresença do mundo das necessidades primárias. A literatura não se inscrevia como uma prática nesse mundo. E prática aqui em dois significados: como um hábito e como uma intervenção útil, pragmática. A literatura se opunha a esse mundo prático. Na visão de todos, ela era como um luxo, um caviar… mas me expresso mal, porque o luxo é desejado, o caviar é querido. Era muito pior: a literatura roubava o tempo que deveria ser empregado em outra coisa. Que coisa? Qualquer coisa, coisa qualquer. Os passatempos mais estúpidos seriam mais necessários que essa inominável ladra de energias, dinheiro e ações dignas de serem vividas.
– Em vez de estar lendo, você devia…
Então eu não mais sorria. No mais íntimo de mim eu me julgava, eu me sabia certo como um neurótico. Tudo era o contrário do que eu pensava, mas eu estava certo. Certo como um neurótico silencioso. Pois que louco eu seria a proclamar as venturas da literatura quando todas e quaisquer coisas eram mais venturosas?
Esta semana uma jovem míope, tímida, com 19 anos, deu uma substância e um conforto a essa qualquer coisa, coisa qualquer que para nada serve, que rouba o tempo e deixa os seus cultores neuróticos, malucos ou esquizofrênicos. Na altura em que a mocinha atravessava um momento difícil, prestou concurso para uma bolsa de estudo na Alemanha. Pois esta semana saiu o resultado: ela foi um dos três jovens escolhidos. E por isso viaja, e por um ano terá bolsa líquida e livre de 600 euros, e mais universidade, casa e alimentação. Mas como, eu perguntei a ela, como você conseguiu, se não é uma falante de alemão? Ao que ela, em seu espírito verdadeiro, me respondeu:
– Eu fui salva pela literatura. Em minha carta contei como Goethe entrou em minha vida.
Ah, sabem? Hoje é domingo, faz sol, tudo é luz. O neurótico aqui dedica à jovem esta crônica.  
***

Eros e Psique (Fernando Pessoa)



    Conta a lenda que dormia
    Uma Princesa encantada
    A quem só despertaria
    Um Infante, que viria
    De além do muro da estrada.
                    Ele tinha que, tentado,
                    Vencer o mal e o bem,
                    Antes que, já libertado,
                    Deixasse o caminho errado
                    Por o que à Princesa vem.
    A Princesa Adormecida,
    Se espera, dormindo espera.
    Sonha em morte a sua vida,
    E orna-lhe a fronte esquecida,
    Verde, uma grinalda de hera.
                    Longe o Infante, esforçado,
                    Sem saber que intuito tem,
                    Rompe o caminho fadado,
                    Ele dela é ignorado,
                    Ela para ele é ninguém.
    Mas cada um cumpre o Destino —
    Ela dormindo encantada,
    Ele buscando-a sem tino
    Pelo processo divino
    Que faz existir a estrada.
                    E, se bem que seja obscuro
                    Tudo pela estrada fora,
                    E falso, ele vem seguro,
                    E, vencendo estrada e muro,
                    Chega onde em sono ela mora.
    E, inda tonto do que houvera,
    A cabeça, em maresia,
    Ergue a mão, e encontra hera,
    E vê que ele mesmo era
    A Princesa que dormia.

05/12/2011

O Brasil rende homenagens aos cem anos de Marighella


Há cem anos nascia, em Salvador, Carlos Marighella, um dos principais nomes do comunismo no país e importante organizador da guerrilha urbana de resistência ao regime militar. Foi deputado federal pelo Partido Comunista na Constituinte de 46 e morreu assassinado em uma emboscada em 1969, um ano depois de fundar e ser o principal dirigente do grupo armado Ação Libertadora Nacional.


 Marighella
Marighella foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista em 1945
Hoje, gozando da democracia que nomes como Marighella ajudou a conquistar, o Brasil rende várias homenagens aos cem anos desse baiano, que como sua biografia conta, apesar de todas as dificuldades, vivia de bem com a vida. Era poeta, escritor, deputado, comunista e segundo os que o conheceram sempre alegre.

Comissão da Anistia
A principal homenagem será a realização da 53ª edição da Caravana da Anistia, que acontece no Teatro Vila Velha, em Salvador e terá como pauta o julgamento do processo de anistia de Marighella. Na ocasião, a Comissão de Anistia fará um pedido de desculpas formal aos familiares do revolucionário. 

Estão confirmadas as presenças do ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, da ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, do governador Jaques Wagner, além de Clara Charf e Carlos Augusto Marighella, sua viúva e seu e filho. Além deles, muitos políticos, familiares, ex-companheiros, intelectuais, além de artistas e movimentos sociais. 

No evento da Comissão de Anistia vai ser lançado o Pró Memorial Marighella Vive, que reúne acervo sobre o revolucionário. Pela manhã, a Associação dos Professores Universitários da Bahia, APUB Sindicato, fixou em sua sede uma placa alusiva ao centenário de nascimento de Marighella, que foi ex-aluno de engenharia civil da Escola Politécnica da UFBA. Também nesta segunda-feira (5), será lançado o documentário Marighella, de Isa Ferraz, no Espaço Unibanco Glauber Rocha, na Praça Castro Alves. 

História
Marighella foi sem dúvida dos nomes mais importantes do movimento revolucionário brasileiro. Não só por sua ação, mas pela influência que exerceu em muitos seguidores ao longo de sua vida. Enfrentou duas ditaduras, da Era Vargas e a de 64, sendo preso e torturado barbaramente em ambas. 

Carlos era a síntese da miscigenação brasileira. Filho de operário imigrante italiano e por parte de mãe neto de escravos africanos trazidos do Sudão. Vinculou-se ao Partido Comunista no início da década de 30. Pouco antes, havia ingressado no curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Bahia. 

Sua primeira prisão foi em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, se engajou de vez na militância política, interrompendo os estudos universitários e deslocando-se para o Rio de Janeiro.

Fora preso outras duas vezes naquela década, em 1936, no Rio de Janeiro e em 1939, em São Paulo. Nas duas últimas prisões, foi barbaramente torturado, mas apesar disso, nunca disse uma única palavra que comprometesse seus companheiros ou o partido. 

Biógrafo 

Segundo o deputado federal Emiliano José (PT-BA), “era de uma bravura incomum. De uma coragem quase temerária. Marighella disse uma vez que não tivera tempo para ter medo”. Emiliano publicou em 1997 a obra “Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar”, que já está em sua terceira edição. O livro é fundamental para quem quer conhecer mais a fundo esse herói do povo brasileiro. 

Da última prisão da era Vargas, Marighella só saiu em 1945, seis anos depois, graças à anistia. Fora da prisão, volta para seu estado natal e se elege deputado federal pelo Partido Comunista. “Exerce um mandato brilhante e ousado politicamente, afinado com o PCB naturalmente. É cassado em 1948, na esteira da cassação do registro do PCB. A Guerra Fria ditava os rumos políticos do Brasil, sob Dutra”, explica Emiliano José.

Depois de cassado, volta para a clandestinidade, se deslocando para São Paulo. Ali, ajuda a coordenar a greve operária de 1953, que envolveu mais de 400 mil trabalhadores e saiu vitoriosa. Em 1957, é eleito para a Executiva Nacional do PCB. Segundo Emiliano, “já era dirigente do Comitê Central desde o final dos anos 30, quando foi eleito para integrá-lo, mesmo estando preso, por decisão da chamada Conferência da Mantiqueira”.

Rompimentos 
Com o processo de cisão vivido pelo Partido Comunista em 1962, opta pelo PCB, conduzido por Luiz Carlos Prestes. Porém, segundo Emiliano, vai se incomodando com o que considerava “a linha excessivamente conciliatória do PCB”, revelada de modo mais claro com o golpe de 1964, quando não houve chance de qualquer reação. Segundo o seu biógrafo, “Ele considerava que se o partido tivesse uma linha mais combativa, seria possível reagir ao golpe”. 

O golpe militar foi deflagrado no fim de março e já em maio saíram à caça de Marighella. Deram voz de prisão a ele dentro de um cinema no Rio de Janeiro. O baiano resistiu e lutou contra os policiais, levando um tiro bem perto do coração quando gritou: “Viva a democracia”. O episódio está descrito no seu livro “Por que resisti à prisão”. Depois de preso, conseguiu sair da prisão no ano seguinte, graças a um habeas corpus. 

As divergências com a linha “conciliatória” do PCB se acentuam por não concordar com a resistência pacífica ao regime militar. Em 1966, rompe com o partido e funda logo depois a Ação Libertadora Nacional (ALN), assumindo claramente a perspectiva da luta armada, na qual se envolve profundamente. 

Guerrilha urbana
Passa a ser o comandante a partir daí de ações de guerrilha urbana executadas nos principais centros. Apesar de ajudar a vários companheiros a se exilarem fora do país, jamais admitiu a possibilidade de se ausentar. 

Com o AI-5, a ditadura aperta o cerco, e as prisões, torturas e mortes passam a ser a sua principal marca. “Numa sucessão impressionante de torturas, de assassinatos, a repressão foi se aproximando de Marighella, até matá-lo covardemente na noite de 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo, numa operação comandada pelo mais famoso torturador da ditadura, Sérgio Paranhos Fleury”, conta Emiliano José. 

Em um discurso no plenário da Câmara dos Deputados, Emiliano José declarou que com entusiasmo apóia a iniciativa a Comissão Nacional da Verdade e homenageou assim o seu ídolo. “Marighella deputado, o Marighella comunista, o Marighella poeta, o Marighella militante, o Marighella companheiro, o Marighella solidário, o Marighella defensor da democracia e do socialismo, o Marighella que entregou sua vida na defesa do povo brasileiro. Viva Carlos Marighella, herói da Pátria brasileira, símbolo e intérprete dos nossos melhores sonhos”. 

Abaixo a poesia Rondó a Liberdade, que deu nome ao seu livro de poesias, publicado pela editora Brasiliense: 
Rondó da Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer. 

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão. 

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas. 

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento. 

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
De Brasília, 
Kerison Lopes

O livro novo de Eduardo Galeano: Os filhos dos dias


Por Eric Nepomuceno na Carta Capital


Galeano precisou de quatro ou cinco anos e de exatas 42.754 palavras para fechar os 366 textos de seu novo trabalho, um para cada dia do ano. Diz que é uma versão pessoal, dele, do gênese segundo os maias. E diz que se somos filhos dos dias, de cada dia nasce uma história que vale a pena ser contada. "Os filhos dos dias" é, revela seu autor, primo-irmão de seu livro anterior "Espelhos". O novo livro só chegará ao público em março do ano que vem. 

Na casa do bairro de Malvin, em Montevidéu, há um certo alívio e uma certa expectativa. Alívio, porque o morador terminou há poucos dias um trabalho que consumiu os últimos quatro ou cinco anos de sua vida. Expectativa, porque o resultado desse trabalho só chegará ao público daqui a alguns meses, em março do ano que vem.

O morador se chama Eduardo Galeano e o trabalho que chegará ao público é um livro que se chama “Os filhos dos dias”. Galeano precisou desses anos e de exatas 42.754 palavras para fechar os 366 textos de seu novo trabalho, um para cada dia do ano. Diz que é uma versão pessoal, dele, do gênese segundo os maias. E diz que se somos filhos dos dias, de cada dia nasce uma história que vale a pena ser contada.

“Os filhos dos dias” e, revela seu autor, primo-irmão de seu livro anterior, “Espejos”, um êxito olímpico em castelhano (estacionou e permaneceu por meses no topo da lista dos mais vendidos na Argentina, por exemplo, antes de ser traduzido para dez idiomas), lançado no Brasil pela L&PM. E explica: é primo-irmão porque começou a ser escrito enquanto ele ainda trabalhava em “Espejos”.

Cada um dos 366 textos de ‘Os filhos dos dias’ foi escrito várias vezes. Aliás, cada texto de Galeano é escrito um sem-fim de vezes. E nascem ao léu, em qualquer lugar e circunstância. Onde quer que vá pela vida, ele carrega sempre umas cadernetinhas minúsculas, que chama de “mi libretita enana”, e é nessa cardernetinha anã que vai anotando palavras. Na maior parte das vezes, em sua casa ampla, cálida, de paredes brancas e jardins bem cuidados. Mas também na mesa do café Brasileiro, em Montevidéu, que funciona como uma espécie de escritório, onde trabalha, dá entrevistas, recebe visitas ou simplesmente fica vendo a vida. E também em aviões e trens, em suas longas, infinitas caminhadas diárias pela orla de Montevidéu, as ramblas à beira do rio da Prata que eles chamam de mar.

Fazer e refazer, lapidar cada texto, cada palavra, é parte de seu método de trabalho há muitos anos. Mais exatamente a partir da formidável trilogia “Memória do Fogo” (Os Nascimentos, As Caras e as Máscaras, e O Século do Vento), iniciada em 1982, onde ele adotou a forma dos textos curtos, secos, extremamente condensados. Como quem busca nas palavras, mais que o osso, a própria medula. O cerne. Aprendeu de um mestre de todos nós, Juan Rulfo, que escrever é reescrever, e que reescrever é cortar palavras, até chegar à sua essência.

Assim é o registro, por exemplo, do 8 de abril de 1973, dia da morte de Picasso: 

O homem que nasceu muitas vezes
Morreu hoje, em 1973, Pablo Diego Francisco José de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz Picasso, mais conhecido como Pablo Picasso.

Tinha nascido em 1881. E se vê que gostou de nascer, porque continuou nascendo.

O dia 7 de maio de 1954 é dedicado a outro personagem essencial de nossos tempos:

Os estraga-prazeres
Em 1954, os rebeldes vietnamitas propiciaram uma tremenda sova aos militares franceses em seu invulnerável quartel de Dien Bien Phu. E após um século de conquistas coloniais, a gloriosa França teve de sumir correndo do Vietnã.

Depois, foi a vez dos Estados Unidos. Nem vendo dava para crer: a primeira potência do mundo e de todo o espaço sideral também sofreu a humilhação da derrota nesse país minúsculo, mal armado, povoado por pouca gente e por gente pobre.

Um camponês, de lento caminhar, de palavras escassas, encabeçou essas duas façanhas.

Ele se chamava Ho Chi Minh, era chamado de Tio Ho.

Tio Ho se parecia pouco aos chefes de outras revoluções.

Em certa ocasião, um militante voltou de uma aldeia, e informou a ele que não havia maneira de organizar aquela gente.

– São uns budistas atrasados, que passam o dia inteiro meditando.

– Pois volte lá e medite – mandou Tio Ho.

Para contar a história de cada dia Galeano vasculhou livros, arquivos, registros. Mas diz que não tem nenhum método de investigação e pesquisa, e, aliás, nenhum método de vida. Diz que as histórias vão atrás dele, dão um tapinha em suas costas, e dizem: “Me conte, me conte que eu valho a pena”.

E que assim vai contando as histórias dos tempos e das gentes, construindo sua gênese de todos nós, em textos curtos, densos, carregados de vida e emoção, e que valem a pena, e como.

MINISTRO CARLOS LUPI CAI E GRANDE MÍDIA VAI TORNANDO O GOVERNO DILMA ROUSSEFF MAIS EFICIENTE A CADA MINISTRO


Lupi deixa o governo Dilma

A presença de um governo trabalhista (Lula-Dilma Rousseff) com o poder de governar o Brasil e uma imprensa neoliberal fazendo o papel de oposição é o melhor dos mundos para os brasileiros. Com certeza, não é o melhor dos mundos para Dilma, assim como não foi para Lula.

A saída do ministro do Trabalho Carlos Lupi é mais uma contribuição da imprensa ao governo Dilma. Apesar de trazer certa dificuldade ao governo, que fica nesse demite-não demite, a grande imprensa em coro tem feito uma limpeza a partir de denúncias, muitas vezes contundentes, contra a atuação dos ministros. Isso tende a melhorar o governo de Dilma Rousseff. Espera-se, sempre, que um substituto vá tomar mais cuidados com o uso do dinheiro público e, obviamente, isso pode tornar o governo Dilma mais eficiente.

É claro que a grande mídia faz o papel de oposição e seu alvo é atingir Dilma Rousseff, no limite, levar a um impeachment, mas essa possibilidade é mais difícil. As análises dos colunistas da oposição (quero dizer, da mídia) tentam relacionar os problemas dos ministros à presidenta.  É uma tarefa ingrata, visto que Dilma tem demitido os ministros e, com isso, fortalecido a sua posição de governo.

O verdadeiro poder da mídia não está nas denúncias que faz contra os ministros governo, visto que esse é seu papel e isso pode ser até bom para a presidenta no final das contas. O poder da mídia está na sua omissão. Assim, as investigações e cobranças sobre a Controlar de Kassab/Serra/PSDB, a corrupção no metrô de São Paulo, etc etc ficam negligenciadas, o que torna os governos aliados da mídia menos fiscalizados e, consequentemente, mais acomodados.

O resultado dessa disputa pode ser semelhante ao que aconteceu com o governo de Lula. Dilma pode sair com mais de 80%  de aprovação. Aí a grande mídia vai criar o termo Dilmismo. O mito Dilma.

É um remédio amargo para o governo ter toda a grande imprensa no calcanhar, mas talvez seja bom para o país……. (se for possível evitar um golpe)