Sob o meu olhar

Aqui neste blog, vocês poderão ver, ler e comentar a respeito do que escreverei. Por meio deste meu olhar sincero, tentarei colocar artigos e dar minha opinião sobre questões atuais como politica, problemas sociais, educação, meio ambiente, temas que tem agitado o mundo como um todo. Também escreverei poesias e colocarei poemas de grande poetas que me afloram a sensibilidade, colocarei citações e frases pequenas para momentos de reflexão.
É desta forma que vou expor a vocês o meu olhar voltado para o mundo.

24/02/2013

Colaboração com a ditadura preocupa igrejas cristãs

Dermi Azevedo - Carta Maior

As Igrejas Cristãs que atuam no Brasil de forma ecumênica deverão dispor ainda este ano de informações sobre a colaboração de padres, bispos, pastores e leigos com a repressão política durante a ditadura de 1964. Um grupo de pesquisa, integrado por cientistas sociais e políticos, além de líderes eclesiásticos, já está dando os primeiros para realizar essa tarefa.

Antes mesmo de serem iniciados os trabalhos, já foram identificados foram identificados vários colaboradores, entre os quais três arcebispos já falecidos. São eles o ex-arcebispo de Belém (PA), d. Alberto Gaudêncio Ramos e seus colegas, da corrente tradicionalista da Igreja, d. Geraldo Sigaud, de Diamantina (MG), e d. Antônio de Castro Meyer de Campos (RJ), um dos fundadores, ao lado de Plinio Corrêa de Oliveira, da organização de extrema-direita Tradição, Família e Propriedade, a TFP.

D. Alberto era uma das principais fontes de denúncias contra os seus colegas e subordinados, na Igreja Católica da Amazônia. Já d. Sigaud liderou uma campanha contra seu colega d. Pedro Casaldáliga, de São Félix do Araguaia e contra d. Tomás Balduíno, da ordem dominicana, de Goiás Velho/GO. Com base em dossiês preparados por Sigaud e Meyer, o governo militar decidiu expulsar Casaldáliga do Brasil. Para a ditadura, d. Pedro, por ser catalão, estava proibido de denunciar problemas brasileiros, como o fez em uma carta em que denunciava o caráter escravocrata do latifúndio na região amazônica.

A ameaça de expulsar Casaldáliga provocou uma discreta, mas objetiva e imediata reação do papa Paulo VI. Em reunião com seu staff, declarou que pela primeira vez na história da diplomacia do Vaticano, a Igreja poderia romper as suas relações com o Brasil. À ameaça abortou, de acordo com o relato do ex-cardeal arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns.

D. Eugênio
Entre as personalidades da Igreja permanentemente vigiadas por colaboradores da repressão está também incluído o ex-cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, d. Eugênio de Araújo Sales. Investigações oficiosas em andamento, feitas por organizações de Direitos Humanos, indicam que d. Eugênio era espionado por assessores do seu próprio staff. A mesma espionagem atingiu um outro arcebispo de Natal/RN, d. Nivaldo Monte.

Ele promoveu, nos anos 70, uma reunião reservada com o governador do Rio Grande do Norte José Cortez Pereira e o clero arquidiocesano. No dia seguinte, foi convidado a comparecer ao comando do então IV Exército (atual Comando Militar do Nordeste), em Recife, onde foi questionado sobre vários itens de sua palestra para o clero sobre a situação socioeconômica do seu Estado.

Deops
Outro ponto a ser levado ao grupo de trabalho das igrejas é o funcionamento informal e ilegal, durante a ditadura de uma "delegacia" no Deops paulista, no centro paulistano, dedicada especialmente às denúncias de clérigos e de pastores contra seus colegas.

Entre os colaboradores dessa "delegacia" – chefiada pelo delegado Alcides Cintra Bueno – estava o jornalista Lenildo Tabosa Pessoa, do jornal "O Estado de S. Paulo". Formado em Filosofia e em Teologia na Universidade Gregoriana de Roma, Lenildo dispunha da formação adequada para participar, até mesmo, no interrogatório de integrantes das pastorais católicas, presos pela repressão...

"O alto comissário do Golbery não toma jeito"

Tarso Genro - Carta Maior

Como Elio Gaspari foi do velho Partidão e depois se tornou confidente do General Golbery, fazendo, a partir daí, uma carreira de jornalista mordaz e corregedor de todos os hábitos do país, ele se dá o direito de não só inventar tolices nas suas colunas, como também enganar os mais desavisados.

Defende as suas teses principalmente a partir da falsificação da posição dos seus adversários de opinião. Para defendê-las, Elio sempre desqualifica os seus adversários com textos de estilo ferino, que não raro beiram a difamação. Os que se sentem agredidos raramente se defendem, não só porque ele não publica as respostas na sua coluna, mas porque talvez temam despertar nele uma ira ainda maior, que também não abre espaços para o contraditório.

Já fui alvo algumas vezes das suas distorções e falsificações, mas sobre este tema da reforma política preciso responder formalmente, porque se trata de um assunto extremamente relevante para o aperfeiçoamento democrático do país, sobre o qual existem divergências elevadas, tanto dentro da esquerda como da direita democrática.

A estratégia usada por Elio Gaspari para promover suas crônicas foi muito comum na época da ditadura, quando o SNI - através de articulistas cooptados - recheava de informações manipuladas a grande imprensa, sobre a “subversão” e as “badernas estudantis”. O regime tentava, desta forma, tanto manter o controle da opinião pública, como dividir a oposição legal e a clandestina, num cenário em que povo já estava cansado do regime. Elio Gaspari parece que se contaminou com este vício e combinou-o com uma arrogância olímpica: desqualifica todo mundo, não respeita ninguém, o que pode significar uma volúpia de desrespeito a si mesmo, ensejada pela sua trajetória como jornalista com idéias muito próximas de um ceticismo anarco-direitista.

Vários dirigentes políticos, tanto da oposição como da situação - da direita e da esquerda - que não estão satisfeitos com o sistema político atual, debatem uma saída: uma reforma política para melhorar a democracia no país. Todos sabemos que não existe um sistema ideal e perfeito, mas que é possível uma melhora no sistema atual, que pode tornar mais decente a representação e os próprios partidos. Este debate para melhorar a democracia e dar maior coerência ao sistema de representação tem despertado a santa ira de Elio Gaspari, que dispara para todos os lados, mas nunca diz realmente qual é a sua posição sobre o assunto.

No seu artigo “O comissariado não toma jeito”, no qual sou citado nominalmente como defensor de fisiologismos, ele atinge o auge na deformação das opiniões de pessoas que ele não concorda. Vincula, inclusive de maneira sórdida estas opiniões a dirigentes políticos condenados na ação penal 470, para aproveitar a onda midiática que recorre diariamente a estas condenações, não só para desmoralizar a política e os partidos, mas para tentar recuperar os desastrados anos do projeto neoliberal no país, nos quais, como todos sabemos, não ocorreu nenhuma corrupção ou fisiologismo.

As deformações de Elio são explícitas quando ele examina dois pontos importantes da reforma política: o “voto em lista fechada” e o “financiamento público” das campanhas eleitorais. Sobre o voto em lista “fechada” ele argumenta, em resumo, que a “escolha deixa de ser do eleitor”, que vota numa lista preparada pelo Partido, que captura o seu direito de escolha.

Pergunto: será que Elio não sabe que a escolha na “lista aberta” (sistema atual), é feita, também, a partir de uma relação de nomes que é organizada pelos Partidos? E mais: será que Elio não sabe que a diferença entre um e outro sistema é que, no atual, o voto vai para a “fundo” de votos da legenda e acaba premiando qualquer um dos mais votados da lista, sem o mínimo nexo com a vontade do eleitor? Repito, qualquer um da lista, sem que o eleitor possa saber quem ele está ajudando eleger!

Na lista fechada é exatamente o contrário. O eleitor sabe em quem ele está votando. E sabe da “ordem de preferência”, que o seu voto vai chancelar, a partir do número de votos que o Partido vai amealhar nas eleições. O eleitor faz, então, previamente, uma opção partidária - inclusive a partir da qualidade da própria lista que os Partidos apresentaram - e fica sabendo, não só quem compõe a lista do seu partido, mas também a ordem dos nomes que vão ter a preferência do seu voto.

Na lista aberta, ao invés de crescer o poder político dos partidos - que Elio parece desprezar do alto da sua superioridade golberyana - o que aumenta é o poder eleitoral pessoal de candidatos que, neste sistema de lista aberta, carreiam os votos dos eleitores para qualquer desconhecido. Por mais respeito humano que se tenha por figuras folclóricas que ajudam eleger pessoas com meia dúzia de votos, não se pode dizer que a sua influência pessoal possa ser melhor que a influência das comunidades partidárias, por mais defeitos que elas tenham.

A tegiversação sobre o financiamento público das campanhas não é ridícula, porque é simplesmente uma falcatrua argumentativa. Elio diz que este tipo de financiamento não acabará com o “caixa 2” e que tal procedimento vai levar a conta para o povo, que ele chama gentilmente de “patuléia”. Vejamos se estes argumentos são sérios.

Primeiro: ninguém tem a ilusão de acabar com o “caixa 2”, que acompanhará as campanhas, enquanto tivermos eleições. O que devemos e podemos buscar é um sistema que possa diminuí-la, substancialmente, através - por exemplo - de um controle “on line”, de todos os gastos das campanhas, num sistema financiado por recursos conhecidos e previamente distribuídos aos partidos.

Este sistema certamente diminuirá a dependência dos partidos em relação aos empresários e permitirá um controle mais detalhado dos gastos, pois cada partido terá um valor previamente arbitrado, para ser fiscalizado à medida que os recursos forem sendo gastos. Reduzir, portanto, a força do poder econômico sobre as eleições, este é o objetivo central do financiamento público.

Quanto à transferência das despesas para o povo, qualquer aluno do General Golbery - digo aqui da modesta situação de fisiológico que me foi imputada - sabe que as contribuições dadas pelas empresas aos partidos e aos políticos, são “custos” de funcionamento de uma empresa, que integram o preço dos seus produtos e serviços, que são comprados pelo consumidor comum ou pelo Estado.

Quem paga por tudo, sempre, é o povo que trabalha e compra e o Estado que encomenda, compra e paga. O defensor da patuléia, portanto, não está defendendo nem a “viúva” metafórica nem o Estado concreto. Está, sim, defendendo a atual influência do poder econômico sobre os processos eleitorais, de uma forma aparentemente moralista, mas concretamente interessada: acha que o sistema assim está bem. Uma forma de fisiologismo altamente disfarçado. O alto comissário do Golbery não toma jeito.

Encontro de camponesas pede salário maternidade de 6 meses para agricultoras

Eduardo Sá - Carta Maior

Brasília – Em marcha até o Congresso Nacional, em Brasília, cerca de três mil mulheres do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) encerraram na quinta-feira (21) seu encontro nacional com um ato político reivindicando mais combate à violência contra a mulher e direitos para as trabalhadoras do campo. Houve um protesto pela abrangência do salário maternidade para seis meses às mulheres agricultoras em frente ao ministério da Previdência e Assistência Social. Também foram fincadas no gramado do Congresso dezenas de placas com nomes de camponesas assassinadas nos últimos anos.

De acordo com Rosangela Piovesani, da direção do MMC, o encontro teve um importante ganho na organização autônoma das mulheres e o reconhecimento por parte da sociedade e das autoridades. Segundo ela, as camponesas saíram de muito longe com muitas dificuldades para fazer um debate super importante sobre alimentação saudável e combate à violência doméstica.

"É muito importante porque só com formação e organização que de fato a gente vai avançar no enfrentamento às desigualdades sociais e, em especial, a violência doméstica. O encontro foi de um ganho muito grande, as mulheres estão emocionadas, firmes, saem daqui com muita certeza de que temos de trabalhar cada vez mais nossa organização e nossa luta, a resistência pelo o que é nosso de direito", afirmou.

A representante do movimento disse ainda que existe a assinatura de um acordo da presidente Dilma com o MMC de apoio às agroindústrias dos grupos informais de mulheres, o que representa uma conquista fruto de uma luta que valeu a pena nos últimos três anos. Isso, ainda segundo Piovesani, é fundamental para lutar também por avanços nas estruturas das cozinhas, nos processamentos da industrialização e no acesso ao mercado.

O encontro foi considerado um marco para o movimento, pois foi o segundo grande acontecimento desde seu primeiro congresso realizado em 2004, afirmou a camponesa maranhense Maria Neves, que pela primeira vez participou de uma atividade dessa amplitude. Nesse sentido, o evento consolida mais o movimento e amplia a formação das agricultoras, complementou.

"Estamos de parabéns. Temos um novo ânimo, todas estão empolgadas e querendo se comprometer para levar esse movimento adiante. A gente nunca para de lutar, quando a gente consegue uma conquista está sempre buscando outras. Estamos até lutando por algumas que já foram conquistadas, e estão querendo derrubar e desrespeitar, como a aposentadoria: é um direito do trabalhador, no entanto temos que provar mil coisas para o INSS. A licença maternidade também, a gente não quer que seja só para a trabalhadora urbana. Nós trabalhadoras rurais também temos o direito de uma licença de seis meses para cuidar do nosso bebê", destacou.

O encontro também contou com a colaboração de homens para sua realização, como é o caso de Samuel Scarponi, do Levante Popular da Juventude, que acompanhou as crianças enquanto as mulheres realizavam os debates. Ele trabalha com educação infantil, e ficou encarregado de promover atividades para as crianças.

"A ideia é garantir que enquanto as mulheres participam do encontro, tiram as deliberações políticas, elas possam estar seguras que os meninos vão receber acompanhamento. Fizemos um processo de educação acompanhando a própria campanha da violência contra a mulher, o efeito que ela tem, e construímos esse pensamento nelas desde novinhas. As discussões que as camponesas fazem em relação ao feminismo é um avanço para a sociedade. Acho que os homens e o resto da sociedade têm que saber diferenciar o feminismo do femismo, não é a mulher contra o homem: elas querem o espaço delas e igualdade. É uma das demandas mais prioritárias para a gente termos avanços, e se emancipar enquanto povo", destacou o militante.

Com apenas 11 anos, Emilly Jahn disse que o encontro foi muito interessante para entender as coisas do Brasil e de outros países. "A gente discutiu muito e aprendemos muitas coisas, a principal delas foi sobre a violência contra a mulher. Tivemos várias atividades que falavam sobre isso, e tudo o que acontece com as mulheres no país. No lugar onde a gente ficou fizeram teatro com fantoches ensinando várias coisas", disse a menina.

Durante o encontro foi elaborado coletivamente pelas camponesas um documento com as principais reivindicações do movimento, no qual elas também se comprometem a construir relações de igualdade dos seres humanos com a natureza, com a produção agroecológica de alimentos diversificados, além de fortalecer as organizações populares, feministas e de trabalhadoras.

Outra carta foi entregue a presidenta Dilma Rousseff, com a seguinte introdução: "Este encontro traz os desafios que envolvem a luta pelo fim da violência contra a mulher, entendida como resultado do sistema capitalista, da cultura patriarcal, machista e racista que perpassa todas as dimensões da sociedade. O modelo de agricultura centrado no agronegócio, no uso de agrotóxicos e transgênicos torna as famílias dos camponeses (as) empobrecidas, dependentes e subordinadas, impactando diretamente as mulheres camponesas que vivem em situação de pobreza no campo e na floresta".

A Palestina vai ao Oscar. E é detida no aeroporto

Baby Siqueira abrão - Carta Maior

Emad Burnat, diretor de ‘5 Broken Cameras’ [5 câmeras quebradas], filme indicado ao Oscar de melhor documentário estrangeiro, foi detido na noite de 19 de fevereiro ao desembarcar no aeroporto de Los Angeles, Califórnia, para participar da festa do cinema de Hollywood. Ele, a esposa Soraya e o filho Gibril, de 8 anos – que também participam do filme –, foram levados para uma área fechada nas dependências do aeroporto e submetidos a interrogatório. Segundo as autoridades de imigração, Emad não tinha em seu poder o “convite apropriado para o Oscar”, seja lá o que isso for.

Emad enviou uma mensagem, pelo celular, a Michael Moore, o polêmico documentarista de ‘Tiros em Colombine’, ‘Fahrenheit 11 de setembro’ (filme que questiona a versão oficial do atentado ao World Trade Center) e um dos diretores da Academia de Hollywood. Moore denunciou a detenção a seus 1,4 milhão de seguidores no Twitter e acionou o pessoal da Academia, que por sua vez contatou advogados para cuidar do caso. “Pedi a Emad que repetisse meu nome várias vezes aos oficiais da imigração e que lhes desse meus números de telefone”, disse Moore. “Parece que eles não conseguiam entender como um palestino podia ter sido indicado ao Oscar”, completou, irônico.

Moore também deixou claro que faria o que estivesse a seu alcance para impedir a deportação que ameaçava a família Burnat. E foi bem-sucedido, porque uma hora e meia depois eles foram libertados. “Mas só poderão ficar em Los Angeles uma semana, até o Oscar”, esclareceu Moore. E, de novo com ironia, acrescentou: “Bem-vindos aos Estados Unidos!”

Para Emad, a detenção não é nenhuma novidade. “Quando se vive sob ocupação militar, sem nenhum direito, esse é um acontecimento diário”, declarou. O filme ‘5 Broken Cameras’ é o resultado de sete anos de trabalho de Emad, que comprou a primeira câmera quando Gibril nasceu e passou a registrar tudo o que acontecia em sua vila natal, Bil’in, na Cisjordânia sob ocupação militar de Israel. Ajudado pelo israelense Guy Davidi, que esteve ao lado da resistência de Bil’in desde os primeiros dias, foi responsável pelo pós-roteiro de ‘5 Broken Cameras’ e figura como codiretor, Emad fez um documento fundamental para a compreensão, pelo público externo, do cotidiano palestino sob ocupação. O título do filme faz referência às cinco câmeras que o exército israelense inutilizou ao atingi-las com tiros. Numa dessas ocasiões o equipamento salvou a vida do diretor – a câmera deteve a bala atirada na direção da cabeça de Emad.

Cineasta por acaso – e por necessidade
Emad Burnat nunca pensou em se tornar cineasta. Foi a necessidade de registrar a ocupação – para proteger os vizinhos, pois os soldados, receosos de um dia enfrentar o Tribunal Penal Internacional, evitam agir com muita violência diante das câmeras –, de mostrar ao mundo, pela internet, a realidade na Palestina, até poucos anos atrás oculta pela narrativa sionista, e de ter provas para apresentar aos tribunais de Israel, aos quais o exército conta histórias implausíveis mas levadas a sério, que levaram Emad a filmar.

Ele comprou sua primeira câmera em 2005, ano do nascimento de Gibril, para gravar seu crescimento e a vida em família. Mas era impossível limitar-se a temas domésticos numa vida sob ocupação militar. As incursões noturnas dos soldados, os ataques aos moradores durante as manifestações não violentas, as prisões, as invasões dos colonos, a construção do primeiro muro e seu desmantelamento em 2011, bem como a execução do segundo muro, tudo era muito impactante no cotidiano de Bil’in e merecia ser registrado.

Essa opinião era compartilha por Guy Davidi, professor de cinema, que em 2005 passou a ir com frequência à vila palestina e chegou a morar lá por alguns meses, para sentir como era viver sob ocupação. Guy produziu alguns curtas sobre Bil’in, onde filmou, entre 2005 e 2008, ‘Interrupted streams’ [‘Fluxos interrompidos’], sobre o confisco das fontes de água palestinas por Israel. Muitas vezes Emad e Guy filmavam juntos as manifestações, os ataques dos soldados, as detenções. Corriam os mesmos riscos. Tornaram-se amigos.

Foi ao longo desses anos que Emad começou a pensar em reunir seu material num longa-metragem sobre a resistência em Bil’in. Estimulado pela família, pelos amigos e por Guy, ele conseguiu tocar o projeto. Só não esperava o sucesso que se seguiu ao lançamento. Cineasta por intuição, Emad ganhou o respeito e a admiração de seus pares ao redor do mundo.

Referência ao Brasil e vários prêmios
Uma das cinco câmeras quebradas exibe um adesivo da bandeira brasileira, símbolo também presente na porta da casa da família Burnat, em Bil’in – um modo de demonstrar o carinho que eles sentem por nosso país. Soraya, esposa de Emad, é palestina criada no Brasil. O casal e os filhos mais velhos falam um português impecável e sem sotaque.

‘5 Broken Cameras’ é o primeiro filme palestino a concorrer a um Oscar. Além de muito elogiado pela crítica, vem tendo uma trajetória de sucesso em todo o mundo. Em 2012, foi indicado para o ‘Asian Pacific Screen Award’ e ganhou o prêmio de melhor documentário no ‘Jerusalem Film Festival’; o de melhor diretor de documentário no Sundance (também foi indicado para o Grande Prêmio do Júri desse festival), nos Estados Unidos, e o Busan Cinephile, do Busan International Film Festival, da Coreia. Em 2011 recebeu o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Especial do Público no International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), na Holanda. A. O. Scott, crítico de ‘The New York Times’, considerou-o uma “comovente e rigorosa obra de arte”.

Ele tem razão. No documentário, com sensibilidade, Emad funde sua vida e a de sua família com a história da ocupação de Bil’in. É uma história comum à maioria dos milhões de palestinos que nasceram nos hoje dezenas de vilarejos – eram mais de 500 antes que os sionistas os tomassem à força, nos anos 1940 – que circundam as 11 cidades da Cisjordânia, compondo as regiões distritais daquela parte do Estado da Palestina.

Com texto de Guy Davidi, e narrado por Emad, o filme nos conduz pelas belas paisagens de Bil’in, mostrando a chegada dos agrimensores israelenses para a medição das terras que seriam confiscadas; as reuniões entre os moradores e o pessoal do grupo Anarquistas Contra o Muro, de Israel, que conseguiu o mapa com o traçado do muro e se uniu aos bilainenses para boicotá-lo; os primeiros enfrentamentos com o exército israelense; as prisões, a progressão dos desafios e da violência, a consolidação da resistência, o apoio internacional à luta não violenta de Bil’in.

Há cenas geniais, como a do grupo de moradores que barra o avanço dos soldados na área urbana da vila com instrumentos de percussão improvisados, numa “bateria” ruidosa e criativa. Há também cenas difíceis, em que Emad se vê obrigado a filmar a prisão dos irmãos e de um vizinho, um menino, e cenas trágicas, como o assassinato de Bassem Abu-Rahmah, o Fil, até aquele momento um dos líderes da resistência e um dos protagonistas do filme. A sequência é dolorosa, embora o público seja poupado das tomadas mais dramáticas.

O documentário leva o público a participar do cotidiano de Bil’in e a vivenciar um pouco do que significa estar submetido a uma ocupação militar. Trata-se de documento histórico, denúncia viva dos abusos cometidos pelo exército sionista. Por isso mesmo, a cena em que o pequeno Gibril, mal se sustentando em seus primeiros passos, oferece um ramo de oliveira a um dos soldados israelenses – que o aceita, com um sorriso culpado e sem jeito – surpreende e enternece. Num momento assim não há como deixar de questionar o mal que os sionistas têm feito aos seres humanos que vivem de um lado e de outro do muro. Não fossem eles, provavelmente palestinos de todas as religiões teriam continuado a conviver em harmonia na Palestina histórica. Os inimigos e a discórdia vieram de fora. Será possível neutralizá-los e resgatar a antiga harmonia, dessa vez juntando ao antigo grupo os cidadãos de Israel, como propõem palestinos e israelenses que defendem a existência de um único Estado, democrático e secular, com direitos iguais para todos?

O impacto nos jovens de Israel

É difícil responder a essa indagação sem levar em conta as alianças do sionismo e seu papel decisivo nas finanças internacionais, na indústria bélica e na tecnologia nuclear. O movimento praticamente domina os setores estratégicos sobre os quais se desenrola o teatro do mundo. É ele que cuida do caixa, do lucro, da produção e do roteiro do espetáculo. Por isso, o combate não se restringe à ação dos sionistas na Palestina. Eles se espalham cada vez mais, controlando governos, territórios e ramos de atividades nos cinco continentes.

Mas é em Israel que seu controle se estende a toda a sociedade. Lá, o sistema educacional garante apoio e submissão aos princípios sionistas nesta e nas futuras gerações. Assim, quem nasce em Israel aprende, desde a infância, que os palestinos são “árabes que vivem em território israelense” – e inimigos. A maior parte dos livros didáticos faz pouca referência à Palestina – nos mapas, por exemplo, Cisjordânia e Gaza são mostradas como território de Israel – e a sua história. A grande maioria dos jovens israelenses não sabe que seu país ocupa outro, e tem de seu exército uma visão heroica e romântica, fabricada pela propaganda sionista.

Contribui para essa ilusão um programa muito comum nos feriados e nos fins de semana em Israel: os pais costumam levar os filhos pequenos a locais onde são expostos equipamentos de guerra, que as crianças podem experimentar, e veículos nos quais elas entram e fingem controlar. Tudo sob o olhar complacente da família e diante das explicações de jovens soldadas e soldados. Para entender como essa indústria da violência funciona, assista ao vídeo produzido pelo israelense Itamar Rose: http://youtu.be/Qp67KehlVGU.

Não é de admirar, portanto, que as crianças de Israel desenvolvam a ideia de que a solução de seus problemas – ou daquilo que lhes é ensinado como “problema” – passa pela via militar. Foi para desfazer essa crença que Guy Davidi decidiu mostrar ‘5 Broken Cameras’ a um grupo de jovens em Israel e filmar suas reações. Suas expressões, durante a exibição do documentário, dizem muito sobre a revelação de como é a vida dos palestinos: indicam surpresa, choque, consternação, revolta, compaixão.

Diante dessa experiência, Davidi resolveu elaborar um projeto maior: levar ‘5 Broken Cameras’ ao público israelense em sessões que permitam reflexões e debates sobre a ocupação, a violência imposta aos palestinos de maneira direta e aos israelenses de modo indireto, o dia a dia dos cidadãos dos dois lados do muro, o próprio muro, o questionamento ao papel do exército e à ideologia dos soldados – que, como eu mesma pude comprovar nas muitas conversas que travei com eles, têm dos palestinos e dos árabes uma imagem deturpada, assimilada em uma existência inteira de educação dirigida e controlada. Conheça a surpreendente experiência de Guy Davidi com os jovens israelenses: http://youtu.be/i1wEszQYEzg.

Será que a arte pode promover compreensão e tolerância, aproximando duas populações separadas pela agenda bélica e expansionista das autoridades sionistas? Será que a mudança necessária pode começar da base de ambas as sociedades, as únicas instâncias portadoras de legitimidade para isso? É uma aposta ousada, a dos diretores de ‘5 Broken Cameras’. Aguardemos os resultados.

Governo rompe compromisso com a sociedade no tema da comunicação, diz FNDC

Redação - Carta Maior

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação divulgou a seguinte nota pública na última sexta-feira (22), a respeito da declaração do secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Cezar Alvarez, no último dia 20, de que o governo federal não vai tratar da reforma do marco regulatório das comunicações.

“A declaração do secretário-executivo do Ministério das Comunicações, no último dia 20, de que este governo não vai tratar da reforma do marco regulatório das comunicações, explicita de forma definitiva uma posição que já vinha sendo expressa pelo governo federal, seja nas entrelinhas, seja pelo silêncio diante do tema.

A justificativa utilizada – a de que não haveria tempo suficiente para amadurecer o debate em ano pré-eleitoral – é patética. Apesar dos insistentes esforços da sociedade civil por construir diálogos e formas de participação, o governo Dilma e o governo do ex-presidente Lula optaram deliberadamente por não encaminhar um projeto efetivo de atualização democratizante do marco regulatório. Mas o atual governo foi ainda mais omisso ao sequer considerar a proposta deixada no final do governo do seu antecessor e por não encaminhar quaisquer deliberações aprovadas na I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em 2009. O que fica claro é a ausência de vontade política e visão estratégica sobre a relevância do tema para o avanço de um projeto de desenvolvimento nacional e a consolidação da democracia brasileira.

A opção do governo significa, na prática, o alinhamento aos setores mais conservadores e o apoio à manutenção do status quo da comunicação, nada plural, nada diverso e nada democrático. Enquanto países com marcos regulatórios consistentes discutem como atualizá-los frente ao cenário da convergência e países latino-americanos estabelecem novas leis para o setor, o Brasil opta por ficar com a sua, de 1962, ultrapassada e em total desrespeito à Constituição, para proteger os interesses comerciais das grandes empresas.

Ao mesmo tempo em que descumpre o compromisso reiterado de abrir um debate público sobre o tema, o governo federal mantém iniciativas tomadas em estreito diálogo com o setor empresarial, acomodando interesses do mercado e deixando de lado o interesse público.

No setor de telecomunicações, na mesma data, foi anunciado um pacote de isenção fiscal de 60 bilhões para as empresas de Telecom para o novo Plano Nacional de Banda Larga em sintonia com as demandas das empresas, desmontando a importante iniciativa do governo anterior de recuperar a Telebrás, e encerrando o único espaço de participação da sociedade no debate desta política – o Fórum Brasil Conectado. Somando-se ao pacote anunciado de benesses fiscais, o governo declara publicamente a necessidade de rever o texto do Marco Civil da Internet que trata da neutralidade de rede, numa postura totalmente subserviente aos interesses econômicos.

Na radiodifusão, faz vistas grossas para arrendamentos de rádio e TVs, mantém punições pífias para violações graves que marcam o setor, conduz a portas fechadas a discussão sobre o apagão analógico da televisão, enquanto conduz de forma tímida e errática a discussão sobre o rádio digital em nosso país. Segue tratando as rádios comunitárias de forma discriminatória, sem encaminhar nenhuma das modificações que lhes permitiriam operar em condições isonômicas com o setor comercial.

Diante desta conjuntura política e do anúncio de que o governo federal não vai dar sequência ao debate de um novo marco regulatório das comunicações, ignorando as resoluções aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, manifestamos nossa indignação, ao mesmo tempo em que reiteramos o nosso compromisso com este debate fundamental para o avanço da democracia.

De nossa parte, seguiremos lutando. A sociedade brasileira reforçará sua mobilização e sua unidade para construir um Projeto de Lei de Iniciativa Popular para um novo marco regulatório das comunicações.

Coordenação executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação – FNDC:

Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub)

Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária - Abraço

Associação Nacional das Entidades de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões – Aneate

Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé

Conselho Federal de Psicologia – CFP

CUT - Central Única dos Trabalhadores

Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações - FITTEL

Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão – Fitert

Intervozes - – Coletivo Brasil de Comunicação Social”

21/02/2013

Dos males de beber além da conta e lembrar em vez de esquecer

Eric Nepomuceno - Carta Maior

Foi numa noite incerta de 2003, em Bali, uma das mais de treze mil ilhas da Indonésia. Julio Poch, argentino de nascimento, naturalizado holandês, piloto da companhia aérea Transavia, uma subsidiaria da KLM, estava bebendo com vários colegas de trabalho. E, no auge da empolgação, começou a contar algumas de suas façanhas voadoras.

Contou, por exemplo, que durante a ditadura que esmagou seu país entre 1976 e 1983 havia trabalhado como piloto da marinha de guerra. Falou da ESMA, a Escola Mecânica da Armada. Tentando ser mais explícito, Poch disse que havia sido piloto em alguns ‘voos da morte’, quando presos políticos eram dopados, levados para os aviões e despejados no mar, no rio da Prata ou no delta do rio Paraná.

Na verdade, ele não tinha falado nada de seu país até que, a certa altura, alguém da animada mesa de bar perguntou sobre a princesa Máxima da Holanda, argentina como ele, filha de Jorge Zorreguieta, que foi ministro da Agricultura dos militares. E então, ao ouvir a palavra ditadura, Poch começou a falar demais.

Primeiro, disse que seus colegas tinham uma imagem distorcida do que havia acontecido na Argentina. Defendeu o pai de Máxima, suspeito de crimes de lesa-humanidade em seu país, e que por isso mesmo foi impedido de comparecer ao casamento da filha com o então príncipe, e hoje rei da Holanda, Guilherme Alexandre. E explicou que, na verdade, o que aconteceu na Argentina foi uma guerra contra terroristas. E, numa guerra, como se sabe desde o principio dos tempos, morre gente.

Embalado pelo próprio discurso, acabou contando dos voos da morte. E, mais embalado ainda, justificou tudo. Disse que jogar pessoas vivas de um avião era, até certo ponto, um jeito mais humano de matar alguém. As vítimas, esclareceu, ‘estavam todas dopadas, não sofriam nada’.

Dois dos que presenciaram aquela confissão macabra, Tim Weert e Erwin Brouwer, resolveram denunciar Poch. Contaram detalhes do que ouviram: os prisioneiros eram despidos, amarrados, drogados com pentotal, conduzidos para um avião e, a certa altura, despejados no ar por uma porta aberta.

Não foi, é verdade, a primeira denúncia sobre os voos assassinos. A primeira – aliás, mais que denúncia: confissão – foi a que o capitão da Marinha Adolfo Scilingo fez em 1995 a Horacio Werbitsky, um dos mais talentosos e contundentes jornalistas argentinos. O livro ‘O voo’, de Verbitsky, foi um dos maiores êxitos da Argentina, e chegou às mãos do juiz espanhol Baltazar Gazrón.

Naquela altura, Garzón investigava a morte de alguns de seus compatriotas nos voos noturnos da ditadura. Levado pela maré de arrependimento, Sicilingo viajou para a Espanha para colaborar com suas investigações. Contou que participou de dois desses voos, e jogou no ar 30 presos. Depois do arrependimento, Sicilingo, diante do tribunal, tentou negar o que havia confessado. Não adiantou nada. Acabou condenado, em 2005, a exatos 1.084 anos de prisão. Cumprirá 30, tempo máximo previsto pelas leis espanholas, sem apelação possível. Continua preso. Deverá sair da cadeia em 2026. Se estiver vivo, terá 80 anos.

Agora, quem enfrenta um tribunal – desta vez, na Argentina – é outro desses pilotos, quase tão famoso como Sicilingo. É o mesmo Julio Poch que bebeu demais certa noite de 2003 em Bali. O mesmo Julio Poch que explicou que jogar pessoas vivas de um avião era uma forma humanitária de matar, já que, dopadas, elas não percebiam nada, não sofriam nada.

Nega tudo, claro. Diz que houve um mal-entendido. Que ele disse, naquela malfadada noite em Bali, ‘nós fazíamos’, e não ‘eu fazia’ voos da morte.

Foram centenas de presos da ESMA atirados em pleno voo. Dos quase 5.200 prisioneiros que passaram pela ESMA, menos de 200 estão vivos. É o maior símbolo do horror que foi a ditadura argentina de 1976 a 1983.

Seis anos depois da noite em Bali, Poch foi preso em Valência, Espanha, em 2009. Tinha ido fazer turismo com a família. Ali começou a ruir uma nova vida que ele havia construído com esmero em 1980, quando em plena ditadura conseguiu passar para a reserva e meses depois foi contratado pela Aerolíneas Argentinas. Em 1989 passou para a KLM. Imagino que nas duas empresas deve ter sido advertido para não jogar passageiros no oceano.

Em 1995 ganhou a cidadania holandesa. E agora, diante de um tribunal em Buenos Aires, diz que foi uma vergonha ter sido arrancado de seu lar holandês apenas por ter emitido opiniões pessoais sobre a política argentina de uma determinada época. Ou seja, seu único delito, diz ele, foi opinar.

Mostra, impávido, os registros de todos os voos que fez enquanto esteve na Marinha. Em nenhum deles aparece um ‘voo da morte’.

Julio Poch terá direito ao que as vítimas da ditadura que ele diz que não houve jamais tiveram: um julgamento justo. Terá direito a se defender. E, se for considerado culpado, será enfim condenado – mas não receberá a pena de morte que ceifou umas 30 mil vidas em seu país.

E, por falar em registro, lembro que agora mesmo foram descobertos, em São Paulo, registro de visitas às masmorras do DOPS – o nefasto Departamento de Ordem Pública e Social – durante a nossa ditadura. Em seus anos mais negros, o DOPS de São Paulo foi um dos centros mais vigorosos da repressão. Ou seja: da tortura, da humilhação, da vexação, da morte.

Esses registros mostram que civis passavam horas nos locais onde se torturava, se violava, se massacrava gente. Nomes surgirão, claro, e entre eles haverá novidades importantes. Já se sabe que um funcionário do SESI, que é controlado pela FIESP, era visitante assíduo. Já se sabe que o então cônsul dos Estados Unidos em São Paulo também frequentava o local. A novidade, então, será conhecer os nomes. Das barbaridades, sabemos todos.

Há uma diferença básica e essencial entre o que acontece na Argentina e no Brasil, com relação ao passado e ao direito à memória, à verdade e à justiça.

Na Argentina, gente como Poch é julgada, se defende e, quando condenada, vai presa. Aqui, trata-se de investigar o que aconteceu, e como aconteceu o que aconteceu. Mas uma esdrúxula lei de anistia, imposta por uma ditadura moribunda, foi confirmada por um bizarro Supremo Tribunal Federal. Ou seja, a corte suprema da justiça do Brasil assegurou, patética, o direito à impunidade.

Aqui, ninguém será julgado. Ninguém será absolvido, ninguém será condenado, ninguém será punido.

Aqui, a aberração da impunidade contou e conta com a cumplicidade dos guardiões máximos da nossa corte suprema. Bizarra corte, bizarra decisão.

Uma denúncia antidemocrática


Por Ruy Braga e Arielli Moreira – DCE Livre da USP.

No dia 4 de dezembro do ano passado, o Ministério Público do Estado de São Paulo denunciou ao poder judiciário 72 estudantes e funcionários da Universidade de São Paulo envolvidos na ocupação do prédio da reitoria em novembro de 2011. Eles foram acusados de, entre outros crimes, formação de quadrilha, posse de explosivos e danos ao meio ambiente.

Logo após a própria universidade, por meio de processos administrativos tendo por base o decreto n°52.906/1972, conhecido como regime disciplinar da USP, editado em conformidade com o Ato Institucional n°5, ter decidido suspender por até 15 dias aqueles estudantes e funcionários, o Ministério Público propôs à sociedade paulista o despautério de encarcerá-los por, no mínimo, oito anos! A denúncia em tela sequer contempla a individualização da conduta dos acusados, caracterizando os 72 acusados culpados por todos os crimes.

Relembremos rapidamente alguns fatos: no dia 27 de outubro de 2011, três estudantes de geografia foram presos ao fumar maconha por policiais militares que passaram o dia assediando a maior faculdade da USP. Em resposta, colegas dos cursos de letras, história, geografia e ciências sociais decidiram ocupar a administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) a fim de chamar a atenção para a crescente militarização do campus.

Na assembleia estudantil ocorrida na terça-feira seguinte, decidiu-se desocupar a administração da FFLCH e o prédio da reitoria foi ocupado. Na madrugada do dia 8 de novembro, este movimento foi duramente reprimido por uma milionária operação militar que envolveu mais de 400 policiais da tropa de choque da PM, apoiados por helicópteros e pela cavalaria militar.

A indevida exageração das acusações presente na denúncia foi rematada por uma cândida apreciação desta ação. Para a promotora Eliana Passarelli:
“No dia dos fatos, o Comando de Choque compareceu a Universidade de São Paulo, junto ao prédio da Reitoria, e solicitaram (sic) novamente aos denunciados que desocupassem o local de modo pacífico. Ante a recusa manifestada pelos envolvidos, os milicianos procederam a (sic) retirada de cada um dos ocupantes, sem utilização de força ou qualquer artefato químico.”

Uma simples consulta às imagens daquela desocupação disponíveis na internet já seria suficiente para refutar tamanha patetice. Claramente, a Polícia Militar não apenas empregou bombas de efeito moral como também intimidou de modo truculento os moradores do conjunto residencial da universidade. A representante do Ministério Público faria melhor figura se, ao invés de criminalizar o movimento estudantil, denunciasse o flagrante desperdício de dinheiro do contribuinte com a desatinada operação de desocupação.

A presença permanente da força militar em um campus universitário é objeto de controvérsias em todo o mundo. Não por outra razão, as universidades contam com efetivo desarmado de segurança, especializado em lidar com os problemas característicos de um meio ambiente institucional cujos valores como liberdade criativa, independência intelectual e raciocínio crítico são essenciais para o progresso humano.

Ademais, medidas realmente capazes de transformar o campus da USP em um lugar mais seguro, tais como a instalação do novo sistema de iluminação pública, por exemplo, nem ao menos começaram a ser implementadas. Na realidade, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) já cancelou por duas vezes o edital para licitação do sistema de iluminação por suspeita de direcionamento a uma empresa.

A questão da segurança no campus da USP merece não apenas ser melhor equacionada por seus dirigentes, como a comunidade universitária não pode permitir que dezenas de seus membros sejam criminalizados pelo Ministério Público estadual em razão de um simples protesto democrático. Lutar por mais participação democrática não é crime.

13/02/2013

A renúncia do Papa tem um significado político

Henrique Carneiro - Carta Maior

A renúncia do Papa é apresentada como uma decisão pessoal, devido à idade. Evidentemente, é preciso buscar as razões de fundo para um gesto inédito nos anais recentes da Igreja e que enfraquece ainda mais a sua credibilidade.

Os pontificados ficam historicamente identificados com alguns dos fatos ou decisões mais importantes que marcaram esses períodos. O Papa Pio XII, contemporâneo do nazismo e aliado de Hitler na sua ascensão ao poder, ficou indelevelmente marcado por essa aliança.

Mas no passado o que resta na memória popular de Papas como Rodrigo Borgia, ou Alexandre VI, senão a reputação de cruel e devasso, que nomeou o próprio filho Cesare Borgia, além de muitos outros parentes, como cardeais? De Júlio III, a nomeação como cardeal-sobrinho do amante de 17 anos, Innocenzo.

De Joseph Ratzinger, o Bento XVI, o elemento mais marcante do seu pontificado, antes da renúncia, parecia que iria ser a denúncia pública da pedofilia no clero. Poderá essa renúncia tirar o foco desse problema e a sua sucessão lançar uma cortina de fumaça que oculte a série de escândalos?

Trago nestes breves comentários, de alguém que não é um vaticanólogo, apenas algumas evidências disponíveis para qualquer leitor de jornais de que essa renúncia não é um raio em céu claro. Que evidências são essas?

Uma crise já antiga de perda de influência

As de que o Vaticano viveu no pontificado de Bento XVI uma crise já antiga de perda de influência social e política, agravada pela perda da credibilidade moral com os escândalos de pedofilia.

Mas ao se tratar dessa instituição, não se deve esquecer que ela é, do ponto de vista financeiro, uma das maiores multinacionais do planeta, com investimentos em bancos, corporações, reservas de ouro, etc. (MANHATTAN, 1983 mostrou a dimensão dessa fortuna).

No ano passado, a Igreja Católica viveu outra crise com as revelações de corrupção e negociatas feitas a partir dos documentos revelados pelo mordomo do Papa, no que ficou conhecido como Vatileaks. Dessa vez, a culpa não era do mordomo, que foi preso, processado, condenado e depois perdoado.

O Banco do Vaticano (o "banco mais secreto do mundo" como diz a revista ‘Forbes’ (JORISH, 2012) é o IOR (Instituto das Obras da Religião), fundado em 1942. Nesse período, o Vaticano vinha de uma colaboração com o regime nazi, por parte de Pio XII, mas, ainda antes disso, de uma colaboração mais estreita com Mussolini, que concedeu ao Vaticano em 1929 a assinatura do Tratado de Latrão com o estado italiano.

Esse tratado, também conhecido como Concordata, foi o que permitiu o reconhecimento do Vaticano como um Estado dentro de outro Estado, incluindo a gestão das próprias finanças e a manutenção da influência política sobre a Itália que ficava com o catolicismo como religião oficial, o ensino confessional nas escolas públicas e outras vantagens ao clero. Só em 1978 houve uma alteração que tornou a Itália uma República laica e o divórcio foi aprovado.

Rompendo o isolamento em que o Vaticano havia ficado desde a vitória da república italiana em 1870, Mussolini concedeu também vultosas indenizações à Igreja. Parte desse dinheiro foi aplicado em Londres em aquisições imobiliárias que hoje alcançam o valor de cerca de meio milhar de milhões de libras esterlinas, embora o valor real permaneça secreto, apesar das denúncias recentes do jornal ‘The Guardian’ (LEIGH; TANDA; BENHAMOU, 2013).

Os interesses econômicos do Vaticano também são afetados pela crise global, o que levou inclusive que em 2012 ocorresse o maior déficit fiscal em muitos anos no Vaticano, de cerca de 19 milhões de dólares (VATICAN, 2013). Nessa crise também incide o custo financeiro com os processos por pedofilia.

Os escândalos de pedofilia: custo moral e econômico

Os escândalos de pedofilia, além do custo moral, têm um preço econômico com os processos e indemnizações que, só nos EUA, chegaram a três bilhões de dólares em mais de três mil processos abertos, com 3.700 clérigos denunciados, 525 presos, a maioria dos quais condenados e cumprindo penas.

Desde os anos de 1950 até hoje cerca de seis mil sacerdotes já foram denunciados nos Estados Unidos por abusos sexuais contra crianças, o que equivale a 5,6% do total do clero dos EUA (SCHAFFER, 2012). Figuras de proa da Igreja, como o líder dos Legionários de Cristo, no México, Marcial Maciel, foram denunciados por pedofilia e outros abusos.

Bento XVI protegeu setores diretamente nazis do clero, como o bispo Richard Williamson, negacionista do Holocausto que havia sido excomungado por João Paulo II, e cuja excomunhão foi revogada por Bento XVI em 2009.

Apesar disso e de ter atendido aos interesses de setores ultraconservadores da Opus Dei e do Caminho Neocatecumenal, cerrando fileiras com partidos como o PP na Espanha para impor os planos de austeridade e flertando com a extrema-direita europeia, Bento XVI teria desagradado a esses setores ao tentar reconhecer parte dos escândalos de pedofilia para buscar limpar a reputação da Igreja. Isso levou um colunista de ‘El País’ a avaliar que a renúncia foi resultado da pressão desses setores ultrafundamentalistas (MORA, 2013).

Seja por causa das acusações de corrupção ou de pedofilia, a renúncia acrescenta uma nota ainda mais decadente a um Papa que dedicou o seu pontificado a um apostolado de intolerância e repressão contra homossexuais, mulheres, muçulmanos e movimentos sociais. Num momento de crescimento da extrema direita católica na sua faceta mais fascista, como o caso do terrorista católico norueguês Breivik, o Papado de Ratzinger foi um ponto de apoio para a homofobia, o racismo, o sexismo, a intolerância e a perda de direitos sociais dos trabalhadores.

"Mudar para tudo continuar igual"

É provável que se jogue com a carta de ‘Il Gattopardo’, de Lampedusa, "mudar para tudo continuar igual", mas para isso, os recursos da inteligência publicitária da Igreja podem contar com novidades, como o primeiro papa não europeu da história, o que não deixará de manifestar mais uma vez um dos sintomas maiores da crise global do catolicismo, a sua condição essencialmente branca e ocidental.

Um papa negro ou latino-americano não conseguirá alterar esse fato: a Ásia e a África permanecem imunes à religião imperial que o sistema de Estados europeu trouxe em sua colonização global.

A participação do Vaticano nos interesses globais do capitalismo também não deve deixar a Igreja imune à onda de revolta anticapitalista que cresce especialmente nas duas margens do Mediterrâneo.

A recente aprovação pela Câmara Baixa do Parlamento francês da união matrimonial homossexual é só mais um sintoma de que os interesses patriarcais, misóginos e machistas do clero também estão a perder lugar na definição da ordem legal e do quadro dos direitos civis do século XXI.

A última monarquia absolutista europeia, o Vaticano, sofre no gesto de renúncia daquele que foi consagrado como o "vigário de Cristo", ou seja, o seu substituto, uma derrota simbólica profunda, pois demonstra falta de coragem e obstinação em carregar uma cruz até o final. A convivência de um novo papa com o ex-papa também esvazia a mística monárquica individual desse vicariato místico, dividindo em dois o corpo do substituto de Cristo na Terra.

Cão vai à missa todos os dias esperando encontrar sua dona que morreu


As pessoas que frequentam a igreja de Santa Maria Assunta em San Donaci, Itália, receberam uma lição de amor e lealdade de um cão nos últimos dois meses. Ciccio, um pastor alemão de 12 anos, cuja dona faleceu há dois meses, visita diariamente a igreja que ela frequentava e onde seu funeral foi celebrado, esperando pacientemente que ela volte.
Cão vai à missa todos
                                            os dias esperando encontrar
                                            sua dona que morreu
Maria Margherita Lochi, 57 anos, adotou Ciccio um ano atrás depois que ele foi encontrado abandonado em um terreno baldio perto de sua casa. Ela era uma amante dos animais e já havia adotado vários gatos e cães, mas sua ligação com Ciccio era especial. Aparentemente, ele sentia o mesmo, já que apesar da morte da dona há mais de dois meses, o cão continua a voltar ao lugar em que a viu pela última vez..
Cão vai à missa todos
                                            os dias esperando encontrar
                                            sua dona que morreu
Dona Maria ia todos os dias à missa na igreja local e o padre permitia a entrada de Ciccio, que esperava pacientemente a seus pés. Ele também esteve lá com os entes queridos da Dona Maria em seu funeral. Mas agora Ciccio parece ter dificuldade de entender que ela não vai mais voltar e continua indo à missa todos os dias no mesmo horário, assim que ouve os sinos chamando os fiéis. Ciccio simplesmente se senta ao lado do altar, em silêncio, na esperança de ver Dona Maria chegar...
Cão vai à missa todos
                                            os dias esperando encontrar
                                            sua dona que morreu
Ele está lá toda vez que eu celebro a missa e é muito bem comportado, não faz nenhum som, nenhum latido", diz o padre Donato Panna. "Ele vai à missa todos os dias. Mesmo após o funeral de Dona Maria, ele espera pacientemente ao lado do altar e fica lá tranquilamente. Eu não tenho coração para expulsá-lo."
Cão vai à missa todos
                                            os dias esperando encontrar
                                            sua dona que morreu
Todos em San Donaci ficaram tão impressionados com a fidelidade de Ciccio, que, em conjunto, decidiram adotá-lo e cuidar dele.
Cão vai à missa todos
                                            os dias esperando encontrar
                                            sua dona que morreu
Este tipo de fidelidade canina que faz o coração da gente doer, nunca deixam de me impressionar.  como Capitán, que viveu no túmulo de seu dono por 6 anos, Leão, o cão que perdeu sua dona nos deslizamentos de terra no Rio, ou o cão russo que guardou o corpo de sua companheira por uma semana, depois que ela foi atingida por um carro. Histórias trágicas que fazem qualquer um amar ainda mais estas bolas de pelo que tanto amor nos dedicam..

09/02/2013

A Lei de Geraldo e a Lei de Gerson

Correio da Cidadania - Reginaldo Parcianello

A Lei de Geraldo provém de uma frase do governador de São Paulo, quando puniu com rigor militar estudantes da USP que ocupavam a reitoria, em fins de 2011: “Ninguém está acima da lei”. Essa frase, como muitas outras do governador, infelizes porque são clichês, suscitou um vivo debate sobre os acontecimentos políticos internacionais, desencadeados pela Primavera Árabe e sobre a situação dos direitos básicos do cidadão, principalmente do artigo 5º da Constituição: será que todos são iguais perante a Lei?

A Lei de Gerson é: “O importante é levar vantagem em tudo”, que proveio de uma publicidade veiculada na década de 70, quando o jogador protagonizou a vitória do futebol brasileiro. Era uma “Lei” condizente com o período político ditatorial, na época em que Rubens Paiva foi torturado até a morte pelos militares, enquanto o “milagre econômico” era abençoado por mãos que acionavam eletrodos colocados nas partes íntimas dos subversivos (hoje os subversivos são os estudantes que ocupam as reitorias de universidades, como única ação política com visibilidade social).

A Lei de Gerson é contemporânea do “rouba, mas faz”, isto é, da política oficial dos governistas militares e dos grandes empresários que patrocinavam o regime autoritário. Naquela época, o importante era combater os “esquerdistas”, como diziam, para concentrar a renda, “fazer crescer o bolo”, conforme o ministro da Fazenda, Delfim Netto, e assim o desmantelamento das políticas públicas comprometeu até a base o plano da construção de uma sociedade com dignidade no trabalho, com educação e saúde de qualidade, além de outros direitos.

A Constituição Brasileira, art. 5, apresenta todos os direitos básicos do cidadão, desde o nascimento livre à igualdade entre gênero, etnia e credo. Do ponto de vista legal, não há como questioná-la, pois é uma herança da Revolução Francesa e do Código Napoleônico que combatia o Direito do Ancien Régime, assentado na distinção entre os três Estados (clero, nobreza, povo). No entanto, um mínimo de observação nos faz perceber que não há nenhum direito civil básico assegurado aos brasileiros, nem sequer o de domicílio inviolável, nem as vítimas de tortura e estupro são amparadas pela lei (como uma mulher que foi estuprada e torturada por policiais e foi enviada para a prisão por ter roubado uma bolsa: caso inédito na história, de uma vítima de duplo crime hediondo que foi presa por um delito).

Neste momento da História, procura-se apagar todo vestígio de pensadores e escritores que questionaram a arbitrariedade da lei e a ação política de cidadãos, em prol de uma causa justa. Cito abaixo alguns exemplos clássicos.

Thomas Morus, entre outros renascentistas, concebeu sua Utopia, mistura de ficção e realidade, como o primeiro grande passo da era moderna para a compreensão fundamental de que um país só se torna livre se pensa nas condições materiais e espirituais de seus cidadãos: a Utopia existe em qualquer lugar em que haja esperanças reais da felicidade, sobretudo coletiva, como herança da Grécia Antiga.

Blaise Pascal é um ilustrativo exemplo de homem de ciências e teólogo do séc. XVII, que se pôs a estudar a lei e a moral, e concluiu que a arbitrariedade, e não o juízo racional, é que fundamenta a opressão costumeira da lei e da ordem: “– Por que me matas? – Porque habitas do outro lado do rio; se habitasses desse outro, serias meu amigo”.

Rousseau foi o primeiro filósofo a desvelar a intrínseca relação entre a opressão legal e propriedade privada. Mas, como o próprio filósofo genebrino reconhece, a natureza humana, uma vez tendo saído de uma condição, não volta ao estado anterior. Por isso, os malefícios da lei, que são totalmente atrelados ao modelo econômico e ao nível de justiça social e distribuição das riquezas, é um problema que deve ser pensado, e não reprimido, por qualquer tendência político-econômica que esteja no poder. Marx aplicou os conhecimentos rousseaunianos de natureza humana e de política na sua crítica da sociedade burguesa.

Dostoievski, romancista russo do séc. XIX, revela todo o mal social e espiritual decorrentes do rigor da lei e da pena de morte. O julgamento de Mítia, em Os irmãos Karamazov, mostra como ocorre o simulacro que é a nossa Justiça, com fios invisíveis que ligam os promotores e os jurados. Ela é feita para apanhar os homens comuns, e as questões e diligências nos tribunais são para expor as fraquezas e vícios dos acusados que, por não terem dinheiro ou influência, foram apanhados pelas malhas da Lei.

Fernando Pessoa, poeta português do séc. XX, também exprime com clareza o que significa a Lei de Geraldo: é uma lei “restritiva para as classes menos abastadas e, particularmente, para os mais poupados e mais sóbrios dentro delas. Não há lei socialmente mais imoral que uma que produz estes resultados (...): o acréscimo de corruptibilidade dos funcionários do Estado e, ao mesmo tempo, o dos privilégios dos ricos sobre os pobres, e dos que gastam facilmente sobre os que poupam”. Quanto maior é o nível da corrupção, decorrente do legalismo ou Lei de Geraldo, menos ele é visível, porque ele cria uma rede de proteção entre os corruptos, que, ao mesmo tempo, são os agentes de aplicação do rigor da lei para punir os que a contestam!

É fácil perceber, pelas referências acima, que a Lei de Geraldo, ao contrário do jogador de futebol (que não é eleito pelo povo) rasga e queima toda a filosofia e toda a literatura de meio milênio de luta contra a opressão e atentado aos direitos humanos. E o fez não somente pelo aspecto formal da infeliz frase do patético governador, mas pelo conjunto de atentados que se seguiram ao ataque militar feito no campus da USP: destruição do campo de refugiados do Pinheirinho; ataque militar contra doentes na Cracolândia; justificação da repressão bárbara da polícia, com muitas mortes de “suspeitos”, que acabou gerando uma série de chacinas e execuções em toda a região metropolitana de São Paulo, nos últimos meses. E isso vale para outro lugar, em que condições análogas são verificadas, desde os grupos de extermínio que surgem por todas as regiões, até as condições dos presidiários, cujos parâmetros são inéditos, mesmo para quem tem noção das masmorras da Idade Média.

Digo que a Lei de Geraldo é um travestimento da Lei de Gerson, porque os interesses que moviam a ideia do “levar vantagem em tudo” eram os mesmos dos mais ricos da atualidade, porém na época ainda era possível dizer que os pobres eram pobres porque eram vagabundos e que bastava dispor-se a colocar-se na luta, com a arma do trabalho, enquanto os militares apontavam suas armas para os políticos e cidadãos que questionavam a conduta institucional.

A diferença entre o país do Gérson e o país de Geraldo pode ser percebida na história macabra do incêndio da boate em Santa Maria, que não foi uma tragédia, pois não há fatalidade, mas um conjunto de atentados contra a vida e contra a lei. Na investigação do ocorrido, vieram à tona as múltiplas formas de corrupção, que envolvem as licitações, o tráfico de influência, o engessamento do poder judiciário, a impossibilidade de se fazer denúncias contra flagrantes situações de trabalho escravo, de tortura e de direitos fundamentais cerceados o tempo todo e justificados pelo poder público. Na verdade, a corrupção já estava latente em todos os fatores que envolviam a licença para o funcionamento da boate: só vieram à tona por causa das mortes.

Na Lei de Geraldo, é possível dizer que não admitimos a tortura, nem a escravidão nem a morte nas portas dos hospitais; no entanto, todas essas coisas continuam ocorrendo e desmascarando, na prática, a teoria da lei “igual para todos”.

Um exemplo atual é a ação do Ministério Público (MP) de São Paulo, que indiciou os estudantes que ocuparam a reitoria da USP, em fins de 2011, após uma série de arbitrariedades da polícia no campus, de integrarem uma “quadrilha”. A arbitrariedade do MP começa pela própria atribuição coletiva de “quadrilha” a uma manifestação política. Recentemente, ocorreu um protesto em Portugal, com ocupação da reitoria, e, pelo que consta, nenhuma “quadrilha” foi indiciada por portar palitos de dentes; na Grécia, onde as bombas dos estudantes são de verdade, e não garrafas vazias, não houve nem sequer resposta com balas de borracha. Será que o Brasil é mais sério do que Portugal e Grécia?

Duas são as possíveis consequências do indiciamento dos estudantes: a absolvição dos estudantes, e então será hora da verdadeira Justiça desmascarar o MP paulista, para que a censura e a ditadura sejam freadas enquanto é tempo; ou condenação dos 72 “terroristas”, e então será o fim de qualquer manifestação estudantil, pois o facebook não consegue pressionar o governo nem para abrir concurso para professores, e uma simples marcha de estudantes pode comportar uns 30 artigos do código penal, desde crime ambiental por alguém pisar na grama, até o de formação de quadrilha, se um policial provocar uma briga na multidão. E xeque-mate: vitória da Lei de Geraldo!

O propósito do governo e do MP é um só: ao cercear a ação política que não seja cega, surda e muda, ocorre a promoção do autoritarismo que, na prática, corta pela raiz qualquer manifestação ou protesto, de modo que as vozes ou quaisquer sinais de protesto são natimortos: basta a imprensa fingir que não ocorreram e a população em geral sequer toma conhecimento. Será que, tal como no caso de Rubens Paiva, serão necessários mais de 40 anos para vir à tona a farsa montada pelo terrorismo de Estado?

A ação da PM no campus foi muito similar, do ponto de vista estratégico, ao planejamento de chacinas com participação policial, na periferia de São Paulo, nos últimos tempos: balas disparadas contra o CRUSP (casa dos estudantes) que foram recolhidas, apreensão de câmaras de estudantes que tentavam filmar a ação, com o agravamento do cárcere privado e até mesmo a reclusão de uma estudante, com denúncia de prática de tortura. E isso tudo foi encaminhado ao MP, que preferiu inverter a ação: a denúncia de crimes hediondos da PM foi arquivada e a ação política dos estudantes foi criminalizada. O surpreendente não é o governador utilizar o legalismo para encobrir o autoritarismo estatal: o problema se torna realmente sério quando o Legislativo ignora os acontecimentos e o Judiciário inverte a ação, tornando as vítimas os criminosos, e VICE-VERSA, e assim todos os poderes institucionais aproveitaram o momento oportuno. Há exatos oitenta anos Hitler também aproveitou o seu momento, e incendiou o Parlamento, para inculpar os comunistas, e aproveitou a febre da supremacia racial para atacar os judeus. Até então tudo parecia se encaminhar bem. No Brasil atual, coisas semelhantes têm ocorrido, com a passividade e mesmo conivência dos três Poderes.

O MP de São Paulo só concluiu que as garrafas manipuladas pela polícia (sem tirar as digitais dos “terroristas”) eram armas de destruição em massa da “quadrilha invasora da reitoria” após mais um ano de intensas mudanças no mundo; do massacre dos mineiros na África do Sul, que ficou impune; depois que ficou claro que a sociedade brasileira e os intelectuais em geral aceitam a Lei de Geraldo, isto é, que quaisquer formas de pressão coletiva devem ser abolidas, de onde se segue o agravamento dos massacres, chacinas, esquadrões da morte, incêndios em prisões ou boates, seja no Brasil ou nos países periféricos do globo. Acho que não é novidade para ninguém que a Reitoria da USP foi ocupada em diversas ocasiões, igualmente com propósito político, e o MP não concluiu que havia ali uma quadrilha: portanto, a Lei de Geraldo, que não pode aparecer por escrito, foi o fundamento legal da acusação.

Souto Maior, em artigo publicado no blog Viomundo, em novembro de 2011, esclarece com extrema lucidez os efeitos da Lei de Geraldo. Para o autor, não cabe ao governante dizer que ninguém está acima da lei, porque, pelo contrário, são os governantes que têm prerrogativas acima dos cidadãos comuns (imunidades, influências e controle do aparato jurídico, em muitos casos) e abafam as vozes contestatórias, imputando aos manifestantes um crime comum (fumar maconha, atentado terrorista com palitos de dente: será que o MP paulista assistiu tantos filmes do MacGyver, que lesou seu cérebro?). Assim, os governantes, ao reprimirem as manifestações estudantis, escamoteiam “interesses que não precisam revelar quando se ancoram na cômoda defesa da ‘lei’”.

A Lei de Geraldo substitui a Lei de Gerson na política do Congresso, pois o caráter tosco da simples compra de votos torna-se cada vez mais obsoleto. Claro que o Congresso tem seus ladrões de galinha (os que compram votos do povo por um par de sapatos ou os que vendem seu voto para os governistas) e também os seus batedores de carteira (os que cuidam do dinheiro dos fiéis de suas igrejas), mas os grandes corruptos são os que controlam os votos de uma grande massa eleitoral (a Bancada do Céu, por exemplo) ou os que canalizam as licitações públicas para um número restrito de empreiteiras, num jogo de toma-lá-dá-cá que não envolve dinheiro vivo, mas influência/acordos e, em uma palavra, a partilha do que é bem comum entre uns poucos plutocratas. E a prova dessa corrupção é justamente a concentração de renda aberrante do país, um crime contra a humanidade, mas que não é previsto pela Legislação.

A Lei de Geraldo é a Lei de Gerson, com roupagens atuais, menos andrajosas e mais pomposas, pois conta com o aval das pessoas que acreditam que a simples referência à “ética na política” ou ao “combate à corrupção” diminui o índice de corrupção e miraculosamente a lei e os direitos básicos tornam-se verdade.

A eleição de Renan Calheiros

Correio da Cidadania

Temos, em nosso país, o péssimo hábito de pretender corrigir uma dificuldade alterando a legislação que visa impedi-la.

Sempre que ocorre algo indesejável, seja no plano político ou em qualquer outro, a reação imediata de todos consiste em reclamar pela edição de uma nova lei, mais rigorosa que a vigente, em vez de tomar medidas para que esta seja efetivamente aplicada.

Como o problema não é da lei, mas da sua aplicação, a nova lei não resolve nada, ficando tudo como dantes.

Um bom exemplo disso são os comentários da imprensa a respeito da eleição do senador Renan Calheiros para a presidência do Senado.

Criticando a eleição de um parlamentar já punido por corrupção, os jornais estão reivindicando a edição de uma lei que elimine o sigilo do voto, pois se constatou que Renan obteve mais votos no escrutínio secreto do que votos declarados pelos senadores em seu favor durante o processo eleitoral.

Ora, neste caso, o problema não decorreu do voto secreto e, por isso, não será sanado com a sua abolição. Porém, esta, sim, causará grave prejuízo ao processo democrático.

O voto secreto é essencial para que os parlamentares possam votar livremente, uma vez que o conhecimento dos votos que os mesmos profiram pode ocasionar represálias aos que votarem contrariamente aos interesses do Executivo.

Tais represálias atingirão os eleitores do parlamentar, causando-lhes prejuízo.

O sigilo do voto não foi colocado na Constituição para proteger os parlamentares, mas os eleitores deles, ou seja, o povo.

A única maneira de evitar situações indesejáveis, como a da eleição de uma pessoa notoriamente corrupta para um cargo público, não depende do Congresso, mas do próprio eleitorado. Isto porque o único meio de evitar tais situações é a vigilância dos eleitores de um parlamentar sobre os votos que o mesmo profira no Parlamento. Portanto, a raiz do problema é a participação do povo na política.

Enquanto a enorme maioria dos eleitores continuar alheia ao que se passa nesse plano e votar inconscientemente, sem nem mesmo se lembrar, tempos depois, do nome do candidato em quem votou, não haverá lei alguma capaz de impedir abusos como este, que está causando revolta em todo mundo.

08/02/2013

Normalização da tortura? Não, obrigado!

Blog da Boitempo - Por Slavoj Žižek

Aqui está como, em uma carta ao jornal LA Times, a cineasta Kathryn Bigelow justificou a representação, no filme A hora mais escura [o filme estréia no Brasil na semana que vem], de métodos de tortura usados pelos agentes do governo norte-americano para capturar e matar Osama Bin Laden:

“Aqueles de nós que trabalham com arte sabem que representação não é aprovação, elogio. Se o fosse, nenhum artista estaria apto a pintar atos desumanos, nenhum autor poderia escrever sobre eles, e nenhum diretor de cinema poderia se aprofundar em assuntos espinhosos de nosso tempo”, escreveu ela ao jornal.

Sério? Ninguém precisa ser um moralista, ou ingênuo sobre as urgências da luta contra o ataques terroristas, para pensar que torturar um ser humano é, em si mesmo, algo tão destruidor que representá-lo de maneira neutra – isto é, neutralizar este caráter destruidor – é por si uma maneira de apoiá-lo. Imagine um documentário que nos apresente o Holocausto de um jeito desinteressado e tranquilo, como uma enorme operação logística-industrial, focando nos problemas técnicos envolvidos (transporte, descarte de corpos, prevenção do pânico entre os prisioneiros que seriam postos nas salas de gás). Tal filme traria também consigo uma fascinação profundamente imoral com o assunto, ou estaria baseado numa neutralidade obscena em seu modo para gerar consternação e horror nos espectadores. Onde Bigelow se encaixa aqui?

Sem sombra de dúvida, ela está aliada a uma normalização da tortura. Quando Maya, a heroína do filme, presencia pela primeira vez uma simulação de afogamento, fica um pouco chocada, mas rapidamente aprende as artimanhas; mais adiante no filme ela chantageia friamente um prisioneiro árabe , “se você não cooperar, nós lhe mandaremos para Israel”. Sua perseguição fanática atrás de Bin Laden ajuda a neutralizar escrúpulos morais comuns. Ainda mais ameaçador é seu parceiro, um agente da CIA jovem e barbado que domina perfeitamente a arte de passar desembaraçosamente da tortura para a gentileza uma vez que a vítima está completamente desamparada (acendendo seu cigarro e lhe contando piadas). Existe algo extremamente perturbador como, mais para frente, o este agente muda de um torturador vestindo jeans para um bem-vestido burocrata de Washington. Isto é normalização mais pura e eficiente – existe um pequeno mal-estar, mais pela sensação da tortura que pela ética, mas o trabalho tem de ser feito. A consciência de que esta sensação ruim sofrida pelo torturador é o principal custo humano da tortura deixa claro de que não se trata de uma propaganda conservadora barata: a complexidade psicológica é representada para que liberais possam se divertir com o filme sem se sentirem culpados. É por isso que A hora mais escura é bem pior que 24 Horas, em que Jack Bauer, pelo menos, sofre um colapso mental no último episódio da série.

O próprio debate sobre o afogamento simulado ser o ou não tortura deve ser descartado como um explícito irracionalismo: por que, se não causa dor ou medo de morrer, este afogamento faz suspeitos terroristas resistentes falarem? A recolocação da palavra “tortura” no campo da “técnica aprimorada de interrogação” é a extensão da lógica politicamente correta: exatamente da mesma forma que “alejado” torna-se “deficiente físico”, “tortura” se torna “técnica aprimorada de interrogação” (e, por que não, “estupro” pode tornar-se “técnica aprimorada de sedução”). O ponto crucial é que a tortura – violência brutal praticada pelo Estado – torna-se publicamente aceitável no momento em que a linguagem pública passa pelo prisma do “politicamente correto” para proteger as vítimas da violência simbólica. Esses fenômenos são dois lados mesma moeda.

A defesa mais obscena feita do filme é a alegação de que Bigelow rejeita o moralismo barato, e de maneira sóbria apresenta a realidade da luta contra o terrorismo, levantando questões difíceis e que, assim, nos fazem pensar (ainda, alguns críticos adicionam, a diretora “desconstrói” clichês femininos – Maya não mostra sentimentalismo, ela é dura e dedicada em sua tarefa, como um homem). Mas, com a tortura, alguém pode não “pensar”. Um paralelo com o estupro se faz, aqui, necessário por si mesmo: e se um filme mostrasse um estupro brutal neste mesmo jeito neutro, alegando que devemos evitar o moralismo barato e começarmos a pensar sobre o estupro em toda sua complexidade? Em nossas entranhas, fica a mensagem de que existe algo terrivelmente errado nisto. Eu gostaria de viver numa sociedade onde o estupro seja simplesmente inaceitável e que aquele que o relativize seja visto como um babaca excêntrico, não em uma sociedade onde alguém precise argumentar contra isto. O mesmo serve para tortura: um sinal de progresso ético está no fato da tortura ser “dogmaticamente” rejeitada como repulsiva, sem nenhuma necessidade de argumentação. 

Então o que dizer a respeito do argumento “realista”: tortura sempre existiu, então não é melhor falar sobre isto publicamente? Este é, exatamente, o problema. Se a tortura sempre esteve aí, por que aqueles que estão no poder agora nos contam abertamente? Só há uma resposta: para normalizar, diminuir nossos padrões éticos.

Tortura salva vidas? Talvez, mas com certeza perdem-se almas – e a justificativa mais absurda é dizer que um verdadeiro herói está pronto para renunciar sua alma para salvar as vidas desta ou deste compatriota. A normalização da tortura vista em A hora mais escura é um sinal do vácuo moral de que estamos gradualmente nos aproximando. Se há alguma dúvida sobre isto, tente imaginar um grande filme de Hollywood representando a tortura de um jeito similar 20 anos atrás. É impensável.

Carta aberta ao Senador Renan Calheiros




"Vida de gado. Povo marcado. Povo feliz". As vacas de Renan dão cria 24 h, por dia. Haja capim e gente besta em Murici e em Alagoas!


Uma qualidade eu admiro em você: o conhecimento da alma humana. Você sabe manipular as pessoas, as ambições, os pecados e as fraquezas.

Do menino ingênuo que eu fui buscar em Murici para ser deputado estadual em 1978 - que acreditava na pureza necessária de uma política de oposição dentro da ditadura militar - você, Renan Calheiros, construiu uma trajetória de causar inveja a todos os homens de bem que se acovardam e não aprendem nunca a ousar como os bandidos.

Você é um homem ousado. Compreendeu, num determinado momento, que a vitória não pertence aos homens de bem, desarmados desta fúria do desatino, que é vencer a qualquer preço. E resolveu armar-se. Fosse qual fosse o preço, Renan Calheiros nunca mais seria o filho do Olavo, a digladiar se com os poderosos Omena, na Usina São Simeão, em desigualdade de forças e de dinheiros.

Decidiu que não iria combatê-los de peito aberto, descobriria um atalho, um mil artifícios para vencê-los, e, quem sabe, um dia derrotaria todos eles, os emplumados almofadinhas que tinham empregados cujo serviço exclusivo era abanar, durante horas, um leque imenso sobre a mesa dos usineiros, para que os mosquitos de Murici (em Murici, até os mosquitos são vorazes) não mordessem a tez rósea de seus donos: Quem sabe, um dia, com a alavanca da política, não seria Renan Calheiros o dono único, coronel de porteira fechada, das terras e do engenho onde seu pai, humilde, costumava ir buscar o dinheiro da cana, para pagar a educação de seus filhos, e tirava o chapéu para os Omena, poderosos e perigosos.

Renan sonhava ser um big shot, a qualquer preço. Vendeu a alma, como o Fausto de Goethe, e pediu fama e riqueza, em troca.

Quando você e o então deputado Geraldo Bulhões, colegas de bancada de Fernando Collor, aproximaram-se dele e se aliaram, começou a ser Parido o novo Renan.

Há quem diga que você é um analfabeto de raro polimento, um intuitivo. Que nunca leu nenhum autor de economia, sociologia ou direito. Os seus colegas de Universidade diziam isso. Longe de ser um demérito, essa sua espessa ignorância literária faz sobressair, ainda mais, o seu talento De vencedor.

Creio que foi a casa pobre, numa rua descalça de Murici, que forneceu a você o combustível do ódio à pobreza e o ser pobre. E Renan Calheiros decidiu que, se a sua política não serviria ao povo em nada, a ele próprio serviria em tudo. Haveria de ser recebido em Palacios, em mansões de milionários, em Congressos estrangeiros, como um príncipe, e quando chegasse a esse ponto, todos os seus traumas banhados no rio Mundaú, seriam rebatizados em Fausto e opulência; "Lá terei a mulher que quero, na cama que escolherei. Serei amigo do Rei."

Machado de Assis, por ingênuo, disse na boca de um dos seus personagens: "A alma terá, como a terra, uma túnica incorruptível." Mais adiante, porém, diante da inexorabilidade do destino do desonesto, ele advertia: "Suje-se, gordo! Quer sujar-se? Suje-se, gordo!"

Renan Calheiros, em 1986, foi eleito deputado federal pela segunda vez. Nesse mandato, nascia o Renan globalizado, gerente de resultados, ambição à larga, enterrando, pouco a pouco, todos os escrúpulos da consciência. No seu caso, nada sobrou do naufrágio das ilusões de moço! Nem a vergonha na cara. O usineiro João Lyra patrocinou essa sua campanha com US1.000.000. O dinheiro era entregue, em parcelas, ao seu motorista Milton, enquanto você esperava, bebericando, no antigo Hotel Luxor, Av. Assis Chateaubriand, hoje Tribunal do Trabalho.

E fez uma campanha rica e impressionante, porque entre seus eleitores havia pobres universitários comunistas e usineiros deslumbrados, a segui-lo nas estradas poeirentas das Alagoas, extasiados com a sua intrepidez em ganhar a qualquer preço. O destemor do alpinista, que ou chega ao topo da montanha - e é tudo seu, montanha e glória - ou morre. Ou como o jogador de pôquer, que blefa e não treme, que blefa rindo, e cujos olhos indecifráveis Intimidam o adversário. E joga tudo. E vence. No blefe.

Você, Renan não tem alma, só apetites, dizem. E quem, na política brasileira, a tem? Quem, neste Planalto, centro das grandes picaretagens nacionais, atende no seu comportamento a razões e objetivos de interesse público? ACM, que, na iminência de ser cassado, escorregou pela porta da renúncia e foi reeleito como o grande coronel de uma Bahia paradoxal, que exibe talentos com a mesma sem-cerimônia com que cultiva corruptos? José Sarney, que tomou carona com Carlos Lacerda, com Juscelino, e, agora, depois de ter apanhado uma tunda de você, virou seu pai-velho, passando-lhe a alquimia de 50 anos de malandragem?

Quem tem autoridade moral para lhe cobrar coerência de princípios? O presidente Lula, que deu o golpe do operário, no dizer de Brizola, e hoje ospeda no seu Ministério um office boy do próprio Brizola? Que taxou os aposentados, que não o eram, nem no Governo de Collor, e dobrou o Supremo Tribunal Federal?


No velho dizer dos canalhas, todos fazem isso, mentem, roubam, traem. Assim, senador, você é apenas o mais esperto de todos, que, mesmo com fatos gritantes de improbidade, de desvio de conduta pública e privada, tem a quase unanimidade deste Senado de Quasímodos morais para blinda-lo.

E um moço de aparência simplória, com um nome de pé de serra - Siba - é o camareiro de seu salvo-conduto para a impunidade, e fará de tudo para que a sua bandeira - absolver Renan no Conselho de Ética - consagre a sua carreira. 


Não sei se este Siba é prefixo de sibarita, mas, como seu advogado in pectore, vida de rico ele terá garantida. Cabra bom de tarefa, olhem o jeito sestroso com que ele defende o chefe... É mais realista que o Rei. E do outro lado, o xerife da ditadura militar, que, desde logo, previne: quero absolver Renan.

Que Corregedor!... Que Senado!...Vou reproduzir aqui o que você declarou possuir de bens em 2002 ao TRE. Confira, tem a sua assinatura:

1) Casa em Brasília, Lago Sul, R$ 800 mil,
2) Apartamento no edifício Tartana, Ponta Verde, R$ 700 mil,
3) Apartamento no Flat Alvorada, DF, de R$ 100 mil,
4) Casa na Barra de S Miguel de R$ 350 mil ..

E SÓ.

Você não declarou nenhuma fazenda, nem uma cabeça de gado!!

Sem levar em conta que seu apartamento no Edifício Tartana vale, na realidade, mais de R$1 milhão, e sua casa na Barra de São Miguel, comprada de um comerciante farmacêutico, vale mais de R$ 2.000.000.Só aí, Renan, você DECLARA POSSUIR UM PATRIMONIO DE CERCA DE R$ 5.000.000.

Se você, em 24 anos de mandato, ganhou BRUTOS, R$ 2 milhoes, como comprou o resto? E as fazendas, e as rádios, tudo em nome de laranjas? Que herança moral você deixa para seus descendentes?.

Você vai entrar na história de Alagoas como um político desonesto, sem escrúpulos e que trai até a família. Tem certeza de que vale a pena? Uma vez, há poucos anos, perguntei a você como estava o maior latifundiário de Murici. E você respondeu: "Não tenho uma só tarefa de terra. A vocação de agricultor da família é o Olavinho." É verdade, especialmente no verde das mesas de pôquer!

O Brasil inteiro, em sua maioria, pede a sua cassação. Dificilmente você será condenado. Em Brasília, são quase todos cúmplices.

Mas olhe no rosto das pessoas na rua, leia direito o que elas pensam, sinta o desprezo que os alagoanos de bem sentem por você e seu comportamento desonesto e mentiroso. Hoje perguntado, o povo fecharia o Congresso. Por causa de gente como você!

Por favor, divulguem pro Brasil inteiro pra ver se o congresso cria vergonha na cara. Os alagoanos agradecem.

Thereza Collor
Enviado via iPad

03/02/2013

Que valores priorizamos?


Em meados de agosto último, um incêndio em um prédio de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, atingiu o apartamento do marchand e colecionador de arte Jean Boghici, que possuía em seu acervo milionário telas de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti etc. Aos 84 anos e nascido na Romênia, esse pioneiro no mercado de arte no Brasil inspirou a psicóloga Patrícia Gebrim a escrever o seguinte texto:

Quando nos traímos, sofremos uma perda imensa
Outro dia acompanhei a notícia do incêndio que ocorreu no apartamento do famoso marchand (Jean Boghici), do fogo que se alastrou destruindo inúmeras obras de arte, uma perda de um valor inestimável, sem dúvida alguma.
Mas confesso que o que mais me chamou a atenção foi que, ao ser questionado pelos jornalistas sobre sua perda, aquele sábio senhor respondeu que o que realmente lhe doía era o fato de sua gatinha ter morrido no incêndio, a gata que ficava ao seu lado na cama e que não tinha conseguido escapar das chamas.
Ora, muitos diriam:
- Que valor tem um simples gato, frente a obras de arte que jamais poderão ser recriadas?
- Que valor tem um simples gato, frente a um patrimônio da humanidade, queimado e destruído, numa perda financeira tão grande que é até difícil avaliá-la qualitativa e quantitativamente?
E ainda assim, para aquele senhor de voz embargada e coração apertado, a gatinha valia mais, e eu achei lindo ouvir isso. Achei lindo ver um homem que já viveu tanto indignar-se daquela forma.
- Quando foi que aprendemos a colocar os cifrões antes da vida?
- Quais são os valores que norteiam nossas escolhas?
Precisamos pensar sobre isso…
Essa inversão de valores está, a meu ver, na base de boa parte do sofrimento humano. Claro, tudo tem lá sua importância. Mas é preciso que saibamos priorizar e enxergar a partir de um ponto que existe dentro de nós, e não a partir de manuais empilhados nas prateleiras expostas, construídas por pessoas que moram fora de nós.
O mundo ao nosso redor pode ter uma ideia do que deve ter valor. Pode criar teorias, embasar pesquisas, elaborar manuais de conduta. Pode até declarar-se detentor de verdades cientificamente provadas. Mas se as verdades do mundo não nos trouxerem paz, se as verdades do mundo não aquietarem nosso coração, será que nos servem de verdade?
Quando traímos a nós mesmos para nos adequarmos ao que acreditamos ser esperado de nós, sofremos uma perda imensa. Maior do que qualquer outra.
Foi isso que me encantou na resposta daquele marchand ao jornalista, a reposta corajosa de alguém que já viveu muito e já não se obriga a agradar quem quer que seja. A resposta de alguém que não se trai, pensem o que pensarem. Ah, como admiro pessoas assim!
E dedico meu artigo à Pretinha, a gatinha que virou estrelinha.