Sob o meu olhar

Aqui neste blog, vocês poderão ver, ler e comentar a respeito do que escreverei. Por meio deste meu olhar sincero, tentarei colocar artigos e dar minha opinião sobre questões atuais como politica, problemas sociais, educação, meio ambiente, temas que tem agitado o mundo como um todo. Também escreverei poesias e colocarei poemas de grande poetas que me afloram a sensibilidade, colocarei citações e frases pequenas para momentos de reflexão.
É desta forma que vou expor a vocês o meu olhar voltado para o mundo.

27/02/2012

Grécia: o elo mais frágil


Posted on  | Blog da Boitempo

Por Ruy Braga.
Na primavera de 2010, os principais bancos europeus convenceram a Troica (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) de que o risco do “calote” grego colocava em perigo grande parte de seus balanços. Como consequência, em maio daquele ano foi elaborado um plano que previa cortes nos gastos sociais, demissões de funcionários públicos, reduções das pensões etc. Em troca, a União Europeia emprestaria 110 bilhões de euros para o governo grego.
O suposto “resgate” da Grécia inaugurou um tenso ciclo de negociações entre as autoridades europeias e o governo liderado pelo então primeiro-ministro Geórgios Papandréu cujo acordo, celebrado no dia 26 de outubro de 2011, previa o desconto de 50% da dívida soberana grega. Em contrapartida, o governo grego comprometeu-se em demitir 150.000 funcionários públicos até 2015 (destes, 15.000 apenas este ano), eliminar a negociação salarial coletiva, instituir um imposto especial sobre a moradia (por exemplo, quem tem uma casa de 100 m² em um bairro popular de Atenas pagará cerca de 400 euros de imposto especial) e reduzir em 50% o valor das pensões.
O acordo foi celebrado poucos dias após um milhão de grevistas paralisarem o sistema de transportes urbanos, os hospitais, as escolas, os bancos e a administração pública em todo o país. No dia 20 de outubro, um militante do Partido Comunista Grego foi morto pela polícia em uma manifestação. No dia 28 de outubro, data em que a Grécia celebra a vitória sobre o exército de Mussolini, em 1940, manifestações populares espontâneas voltaram-se contra as autoridades presentes nas paradas oficiais.
O mesmo ciclo de revoltas populares repetiu-se na semana passada durante a greve geral convocada contra o empréstimo de 130 bilhões de euros – dinheiro que não passará nem perto de Atenas, mas garantirá o resgate pelos bancos privados de 50% do valor de face dos títulos gregos – autorizado pela Troica no dia 21 de fevereiro. Este plano ameaça sacrificar uma geração: até 2020, o governo grego, agora liderado pelo ex-vice-presidente do Banco Central Europeu, Lucas Papademos, aceitou drenar todos os excedentes fiscais alcançados às custas de demissões, cortes de aposentadorias, aumentos tributários, desmanche dos serviços públicos e arrocho salarial (25% de corte no valor do salário mínimo), para o pagamento dos credores europeus.
Além disso, as autoridades europeias exigem que a Grécia adie eleições ou extenda indeterminadamente a validade dos mandatos dos atuais parlamentares. Finalmente, a Troica planeja manter uma missão permanente em Atenas a fim de monitorar as contas públicas e supervisionar a execução do acordo. Evidentemente, qualquer semelhança da Grécia com uma colônia de Berlim não é mera coincidência…
Seguindo a teoria econômica padrão, aqueles que defendem o pagamento da dívida grega alegam que os bancos apenas recolhem a poupança pacientemente acumulada por meio do trabalho árduo para financiar investimentos que geram empregos e asseguram o crescimento econômico. Portanto, eles não podem ser penalizados pela irresponsabilidade de governos que gastam muito mais do que deveriam em pensões e serviços públicos.
No entanto, a realidade é muito diferente… O atual sistema financeiro está baseado em operações transnacionais que fundamentalmente objetivam criar capital fictício na forma de crédito. Para simplificar: quanto mais um banco empresta, maior será o seu lucro. No decorrer das últimas décadas, os bancos europeus enredaram-se em uma relação insustentável entre créditos e capitais próprios. Eles estão excessivamente “alavancados”, ou seja, suas garantias tornaram-se insuficientes diante da péssima qualidade de seus ativos.
Neste contexto, governos foram convocados a diluir as perdas da banca por meio da alienação do crédito público. Daí os “sacrifícios” exigido das famílias de trabalhadores pelos planos de austeridade impostos pela Troica: como os países semi-periféricos da eurolândia tem um poder de barganha menor e a atual crise de superprodução capitalista desvaloriza rapidamente a montanha de capital fictício que os bancos alavancaram nas duas últimas décadas, eles são os mais atingidos pela atual crise.
Os ajustes exigidos da Grécia, de Portugal, da Espanha e da Itália servem basicamente para resguardar o capitalismo franco-alemão de uma crise incontrolável, conforme a lógica do atual regime de acumulação neoliberal e financeirizado. Nunca é demais lembrar que os países do sul da Europa desenvolveram um déficit comercial crônico com a Alemanha após adotarem o euro em 2002. Ao longo dos anos 2000, a Grécia transformou-se em um mercado de consumo dos produtos alemães cujas vendas foram em grande medida financiadas pelos bancos de Frankfurt.
Aqui, vale a pergunta: os trabalhadores gregos devem ser sacrificados para proteger os bancos europeus? Além de politicamente ilegítimas, o plano de austeridade promove uma recessão econômica cujos custos sociais são simplesmente inaceitáveis. A alienação do crédito público para bancos que tem nas mãos títulos impagáveis é um crime, não uma solução para a crise. Neste sentido, não há a menor esperança para a juventude e para os trabalhadores gregos que não passe pela imediata suspensão dos acordos com a Troica e pelo não-pagamento da dívida.
Naturalmente, um governo títere liderado por um ex-funcionário do Banco Central Europeu decido a transformar o próprio país em uma colônia de Berlim jamais fará algo semelhante. Por seu lado, as classes trabalhadoras na Grécia já perceberam que seu futuro depende de uma profunda reviravolta política. Aquilo que há alguns anos era considerado simplesmente impensável vai rapidamente impondo-se como uma fronteira incontornável. Os partidos de esquerda e de extrema-esquerda começam a se tornar hegemônicos entre os trabalhadores gregos e a espiral de violência entre os manifestantes e a polícia aumenta dia após dia.
Até o momento, a Troica endureceu o jogo com a Grécia na esperança de transmitir a mensagem apropriada a quem de fato tira o sono dos banqueiros europeus, isto é, a Itália e sua dívida do tamanho do Produto Interno Bruto alemão. Por isso mesmo, o caminho da revolução na Grécia passa por Roma, assim como por Lisboa e por Madri. Enquanto os trabalhadores gregos lutarem isolados, não haverá muita esperança para a Europa. Mas, afinal, talvez a Grécia seja apenas o elo mais frágil da corrente capitalista. 

‘Revoltas árabes tendem a resultar em democracias participativas, já um grande avanço’

Correio da Cidadania
ESCRITO POR GABRIEL BRITO, DA REDAÇÃO   
SEXTA, 11 DE FEVEREIRO DE 2011

O mundo inteiro segue acompanhando atentamente os acontecimentos no Egito, segundo país do norte da África a entrar em convulsão, após a exaustão generalizada de seu povo com a vida sob mando da ditadura militar de Hosni Mubarak, historicamente financiada pelos EUA e mediadora de primeira hora das políticas genocidas de Israel. Ou seja, peça central dos interesses ocidentais no instável tabuleiro do Oriente Médio.

Para tratar de um dos assuntos mais complexos da política internacional, o Correio da Cidadania entrevistou a professora Arlene Clemesha, chefe do Centro de Estudos Árabes da Universidade de São Paulo e uma das principais conhecedoras das conjunturas dos países de toda a região.

De acordo com Clemesha, apesar da força do levante popular, acompanhado crescentemente pela população de vários outros países, não se pode considerar que está em curso um processo revolucionário, mas sim a entrada de tais nações no patamar de democracias participativas, "o que já seria uma grande mudança". Com o povo nas ruas há duas semanas, as potências mundiais, ao contrário do que permitiram na Tunísia, negociam uma transição que não afete em demasia a ordem geopolítica da região, incluindo aí o Oriente Médio.

No entanto, o processo segue intrincado, pois a relevância do Egito e seu papel submisso aos interesses dos EUA e de Israel o tornam mais decisivo, e uma débâcle total significaria um futuro incerto e perigoso para a região. "Eles já tentam, com muito atraso, prevenir esse tipo de situação, buscando o controle da transição no Egito". Isso para evitar mudanças que tragam o aumento nas tensões da região - Irã, Palestina e conjunturas internas de outros países que vivem ditaduras mascaradas.

Confira na íntegra a entrevista com Arlene Clemesha.

Correio da Cidadania: Primeiramente, como explicar uma onda tão inesperada, ao menos aos olhos ocidentais, de sublevações populares a partir dos países árabes do Norte da África, com potencial de ainda se alastrar por mais nações vizinhas?

Arlene Clemesha: Os países que sofreram revoltas até o momento são lugares onde a desigualdade social, o empobrecimento e a inflação dos bens básicos vinham causando uma situação de vida extremamente difícil para a população. Aliado a isso, eram regimes ditatoriais, autoritários, fazendo com que a população se sentisse deslocada da possibilidade de esgrimir suas reivindicações.

Por exemplo, a Tunísia era considerada um regime modelo. Era praticamente um resort, uma colônia de férias francesa; eles viajam inclusive para fazer operações plásticas a preços acessíveis... Mas ignorava-se o sul do país, a miséria tremenda da população e a revolta que se gestava ali.

Correio da Cidadania: Quais as características dos cenários políticos de países como Tunísia e Egito? O que mais une esses povos além da opressão sofrida por regimes autocráticos?

Arlene Clemesha: Há especificidades, mas existem muitos regimes autoritários na região, e que já vinham sofrendo pequenas revoltas, greves de trabalhadores, com sindicatos que tentam se reorganizar. E essas revoltas têm sido duramente reprimidas.

O Marrocos é outro caso, uma monarquia cuja família real ocupa o poder desde o século 17 – a mesma família. Claro, hoje o país não tem um regime idêntico ao do século 17, mas não é democrático e vem reprimindo várias manifestações. Também proibiu manifestações de solidariedade ao Egito, mas há uma grande manifestação marcada no país para o dia 20. Vamos ver o que acontecerá.

O Egito sempre foi governado por militares, ou regimes que conseguiam no máximo uma fachada de democracia ou abertura, na medida em que tinha um parlamento, mas sem ser uma verdadeira democracia, com partidos banidos, a oposição sem liberdade de organização, a população sem sua liberdade, a imprensa vigiada, além do empobrecimento nas últimas duas décadas, principalmente na última, que tem se tornado insuportável. O Egito sempre foi pobre, é um país com um terço da população de todos os 22 países árabes, em condições muito precárias. Ao mesmo tempo, tem uma classe educada, de grau universitário e desempregada. É uma classe de opinião formada e que sabe reivindicar seus direitos.

E alguns movimentos já vinham em andamento, como o 6 de Abril, data em que foi reprimida uma greve no ano de 2008. O movimento continuou existindo, buscando aumentar os canais de reivindicação; o nome também se refere a um jovem que foi abordado e assassinado pela polícia, sem explicação. Aliás, a população odeia a polícia; em relação ao exército, não é a mesma coisa, mas a polícia é muito odiada. Houve uma série de tentativas de manifestação. Depois do ocorrido na Tunísia esses, desejos ganharam fôlego e a população mostra que não abandonará as reivindicações.

Na Jordânia, por sua vez, o rei já trocou o primeiro-ministro como forma de tentar impedir que se chegue a uma revolta, mas mesmo assim houve manifestações por lá. E também se trata de um regime que vigora há duas décadas, autoritário, com problemas sérios com o sul, oprimindo toda forma de oposição e expressão política.

Na Síria, a população também já marcou manifestações, e lá é extremamente difícil fazer isso. Mas diferentemente do Egito, a Síria não deve favores aos EUA. E o Egito é um regime tão criminoso quanto esses outros em termos de repressão, tortura, perseguição e prisões políticas. No fundo, creio que não haja muita diferença nesse ponto, a não ser a de que o Egito tenta disfarçar mais, inclusive pelo grande apoio dos EUA, que não querem manchar seu nome com torturas e prisões, já que se dizem defensores da democracia.

Correio da Cidadania: Considerando especificidades dos vários países, é razoável designá-los como pertencentes ao ‘Mundo Árabe’?

Arlene Clemesha: Há uma série de políticas em jogo, cada uma com sua especificidade, seus aliados, que são diferentes. Por isso que não se pode falar nessa coisa de ‘Mundo Árabe’. Isso é uma ficção. Não existe uma unidade de interesses. Basta lembrar o que ocorreu quando o Egito tentou formar a República Árabe Unida com a Síria; não durou dois anos, e depois ficou sendo apenas o Egito, porque não existe essa unidade de interesses entre os países árabes.

Existem traços culturais, históricos, interesses regionais, mas ‘Mundo Árabe’ é uma generalização. Essa é a palavra certa: uma generalização, que leva à confusão.

Pra ilustrar, as decisões da Liga Árabe não precisam ser aplicadas por todos os países. Cada um pode decidir facultativamente, as resoluções da Liga Árabe não são compromissos automáticos de todos.

Correio da Cidadania: O que esperar do porvir, especialmente dos dois países que já derrubaram seus governos? Quais as tendências de encaminhamento futuro da conjuntura política da região, especialmente se outros regimes também confirmarem seu colapso? Acredita que os povos dos países em processo de revolução, ou ao menos de rompimento com a ordem atual, saberão criar e fazer emergir governos realmente populares?

Arlene Clemesha: Populares é difícil, mas uma democracia representativa sim, o que já seria uma grande mudança. Porém, ainda não podemos avaliar o significado total.

Não acredito que se entrará num regime religioso, islâmico, tampouco num regime popular, revolucionário. Não é o cenário. Algo com uma participação popular mais ativa, sim.

Creio que serão regimes mais representativos, o que significará uma mudança importante, inclusive nas relações internacionais desses países.

Correio da Cidadania: Qual o nível de participação da esquerda nos processos da Tunísia, Egito e outros ainda em gestação?

Arlene Clemesha: A esquerda comunista e de outras linhas derivadas, trotskista etc., é muito pequena nesses países, mas existe. Estão lá, formam seus grupos, tanto que temos visto comunicados enviados por eles. Mas não chegam a ter um peso político tão importante no processo de transição. O que podem e têm procurado fazer é se inserir em comitês populares, em nome de reivindicações populares. Mas não vamos ver o Partido Comunista sentar na mesa de negociações.

Os partidos de esquerda estão presentes, porém pequenos, e em alguns casos trabalham na clandestinidade, com dificuldades de funcionamento. De toda forma, fazem parte do cenário político.

Correio da Cidadania: A atuação de grupos de oposição de origem islâmica aos regimes ditatoriais tem sido mencionada com alarmismo, no sentido do risco de encaminhar o processo rumo a Estados fundamentalistas. Qual é a verdadeira atuação desses grupos na região e que importância têm nesse processo?

Arlene Clemesha: Esse alarmismo é oportunista. Nós sabemos que é. Passam essa idéia realmente para justificar o apoio, por exemplo e usando um caso extremo, dos EUA a um regime não democrático.

A situação é completamente diferente, mas o paralelo vale: no início do governo de Hitler, a Alemanha chegou a ser vista como um possível freio à expansão do comunismo. O que ajudou a que não houvesse oposição no país e aí... Bom, esse tipo de política é nociva, sem fundamento, reacionária.

Quanto a real presença dos grupos islâmicos, depende de cada país. No Egito, essa presença dentro da oposição é das maiores, chegando a alcançar 20% das cadeiras do parlamento nas eleições de 2005 – nas últimas eleições, boicotaram.

Mas a população, inclusive quem mora lá e também analisa as políticas egípcias, não vê perspectivas de um governo islâmico assumir o poder através de eleições. Seria apenas uma das forças presentes.

E mais: em primeiro lugar, é oportunismo alardear esse medo, essa suposta realidade. Em segundo lugar, a possibilidade de tal fato se concretizar no Egito é pequena. Em terceiro, se um povo resolve eleger um governo islâmico, também deveria ser respeitada tal eleição, porque os governos islâmicos não são todos fundamentalistas, e também porque mesmo grupos considerados extremistas (eu não diria terroristas), como o Hamas, querem dialogar. A Irmandade Muçulmana, neste momento, não tem um programa para transformar o Egito em República Islâmica. E se estivesse no poder, não acredito que seriam tão inacessíveis ao diálogo.

Aliás, se pegarmos o regime iraniano, um dos mais extremistas, veremos que é menos repressor com sua população que a Arábia Saudita, que em nenhum momento é denunciada como regime opressor, fundamentalista etc. Portanto, dialoga-se com o regime islâmico da Arábia Saudita, mas não se dialoga com o regime islâmico do Irã. Por quê? Bom, não é pelo caráter islâmico. É pela aliança política de cada um, política pura.

Portanto, o mais importante é que a população possa escolher; e se optar por um regime islâmico, não devemos achar que vá significar anti-ocidentalismo, porque não vai. A não ser que o ocidente esteja tecendo políticas de intervenção, invasão, ocupação, aí sim seria despertado tal sentimento. E, nesse caso, não decorreria um anti-ocidentalismo generalizado, mas resistência a uma agressão. A realidade é mais simples do que pintam.

Correio da Cidadania: É possível que a região entre num processo mais acelerado de politização, em detrimento da interferência da religião nos processos políticos?

Arlene Clemesha: Com certeza. Porque na medida em que a população conseguir fazer avançar suas reivindicações, promover debates políticos, vai formar opiniões mais consolidadas. E a população egípcia não é exatamente tão religiosa; não é dos países e populações da região mais fervorosos nesse sentido.

Correio da Cidadania: Que reação devemos esperar de Israel caso a região sofra a guinada política que se anuncia?

Arlene Clemesha: Não ficaria surpresa se começassem movimentações militares na fronteira e a tentativa de se orquestrarem boicotes ao novo regime.

Correio da Cidadania: E caso os interesses norte-americanos comecem a enfrentar mais barreiras para se impor na região, a partir do surgimento de lideranças menos submissas, poderíamos temer por intervenções belicistas dos EUA, a exemplo de tantas que ocorreram nas últimas décadas?

Arlene Clemesha: Eles já tentam, com muito atraso, prevenir esse tipo de situação, buscando o controle da transição no Egito. Isso porque novos esforços militares que se tenham de fazer eventualmente são inviáveis no momento. Já há uma frente aberta com o Irã, com esse dilema de atacar ou não, e com a pressão de Israel para que o faça. Portanto, uma frente em país como o Egito, por exemplo, é impraticável.

Dessa forma, não vejo tal possibilidade. Vejo mais a possibilidade de novas políticas, movimentações até de fronteira, tentativas de minar o governo, criação de outras alianças contra o governo, em instituições internacionais, na política internacional, mas não na forma de ataque, como se viu no Iraque.

Correio da Cidadania: Finalmente, o que pensa do tratamento dúbio que os governos ocidentais, e a mídia associada, têm dado, ao longo de todos esses anos, a estes regimes, especialmente no que tange os direitos humanos?

Arlene Clemesha: Isso é muito interessante de se prestar atenção, pois revela a verdadeira natureza do apoio político. Por exemplo, podemos falar do caso do Brasil. Apenas no dia 06/02 o ministro da Casa Civil disse apoiar a revolta. Mas até então não tínhamos visto uma declaração do governo ou do Ministério das Relações Exteriores em relação a isso.

É complicado. Temos um povo na rua há 15 dias e um país como o Brasil, que vem procurando uma inserção maior na política da região, não toma nenhuma medida, não faz nenhuma declaração contra o ditador? Eu não vou qualificar de nenhuma forma, mas isso chama a atenção. Felizmente, o ministro da Casa Civil acaba de declarar que o Brasil apóia a revolta popular para a deposição de Mubarak.

Já os EUA vão mais longe ainda, pois revelam muito claramente sua política de apoio a um regime amigo, que não é nada democrático, mas é seu aliado. Assim como a mídia.

Na arena da transgressão


Pulamos da era do animal para a era da máquina, pilotando carros e jet skis como num rodeio. A

diferença é que o cavalo age com inteligência, mesmo quando o cavaleiro é burro

26 de fevereiro de 2012 | 3h 08
José de Souza Martins - O Estado de S.Paulo
Repetidos acidentes, até fatais, por uso de veículos por pessoas inabilitadas recebem entre nós o rótulo de "fatalidade". Mas há fatalidades previsíveis, que podem ser evitadas e não o são. Alguém é responsável por elas. A adoção de equipamentos e instrumentos que dependem de maturidade e habilitação para ser manejados deu-se no Brasil como uma espécie de salto do passado ao futuro, sem passagem pelo presente da ressocialização e da reeducação para seu uso. Pulamos da era do cavalo para a era da máquina, dirigindo máquina como quem dirige cavalo. A diferença é que o cavalo é um animal que age inteligentemente, mesmo quando o cavaleiro é burro. No caso da máquina, se falta prudência, maturidade e habilitação, não só o usuário corre risco. Também a sociedade o corre. Nesse risco temos vivido. Basta fazer um recorte temporal, mesmo num curto período, para que nos defrontemos com uma coleção de casos recorrentes.
A morte da menina de 3 anos de idade na praia, em Bertioga, atingida por um jet ski desgovernado, pilotado por um moleque de 13 anos, foi apenas um dos casos de uso irresponsável de máquinas mortíferas nos dias do carnaval. Na represa de Guarapiranga, dois jet skis se chocaram e um dos pilotos, de 20 anos, ficou ferido. Os dois pilotos, maiores de idade, não tinham habilitação, só concedida a quem tenha 18 anos completos. Em novembro, numa lagoa de Ribeirão Preto, dois jet skis, dirigidos por um adolescente de 15 anos e por um homem de 28 anos, se chocaram. O homem morreu. Nenhum dos dois tinha habilitação, concedida pela Marinha.
Não só na água a síndrome de Superman produz vítimas. No Rio Grande do Sul, na praia do Quintão, nestes mesmos dias de folia, um jovem de 18 anos dirigindo um carro entrou numa rua interditada aos veículos pela realização do desfile de carnaval local e atropelou 17 pessoas, das quais 9 foram hospitalizadas. Em fevereiro de 2011, um carro entrou propositalmente sobre os ciclistas de uma demonstração do movimento Massa Crítica, numa rua de Porto Alegre, atropelando vários. Nove foram hospitalizados, com ferimentos leves. No caso de Bertioga, não houve nem mesmo a prestação de socorro à vítima. A família do atropelador deixou o local de helicóptero.
O País continua regido por uma cultura da transgressão, própria de uma sociedade de senhores e de escravos. Nela, diferentemente do que ocorre em sociedades civilizadas, o outro é irrelevante; relevantes são o sentimento de superioridade em relação aos demais e a esperteza para escapar das formalidades da lei. Herdamos essas concepções da sociedade colonial, que por ser fundada na desigualdade era também fundada no pressuposto de que o ter e o mandar sobrepõem-se ao ser. Passou o tempo, e o advento da sociedade moderna - e com ela o da classe média e da ascensão social -, em vez de disseminar o cidadão e a igualdade, difundiu a aspiração da afirmação da desigualdade em nome dos valores retrógrados do antigo regime. A lei mudou, na letra e na forma, mas o egoísmo consumista e moderno revigorou costumes e mentalidades.
Há deturpação e crime na licença que usuários se dão de dirigir bêbados um carro ou dirigir um jet ski como se fosse um cavalo num rodeio, o que é próprio de uma sociedade em que nem sempre é a função do objeto que determina seu emprego, mas o abuso, o prazer mórbido de transgredir, a ilusão de poder que dele decorre. Incorporamos os meios e confortos da modernidade, mas não suas funções sociais e, portanto, não as regras de civilidade nelas pressupostas, o preço a pagar.
O caso de Bertioga é particularmente grave porque envolve duas crianças. O atropelador, nos procedimentos para protegê-lo das consequências do crime que cometeu, recebe a feia lição de que mesmo o assassinato pode ser contornado. Mas carregará para o resto da vida a consciência de que tirou a vida de outra criança. Os especialistas que se manifestaram já deram a entender que ele não será punido, o que se compreende. De fato, ele não é um infrator; infrator é quem lhe colocou nas mãos a máquina mortal, sabendo que se tratava de uma ilegalidade e que havia risco para terceiros e para o próprio. Quando muito, os responsáveis indenizarão a família da vítima, como já aconteceu em casos parecidos. Tudo se resolverá na mesquinha lógica mercantil que dissemina de maneira irresponsável a cultura do consumo sem freio, mesmo que seja colocando instrumentos de violência nas mãos de imaturos. Pais e parentes se tornaram acólitos e servos dessa cultura de ostentação, entulhando suas vidas e a de seus filhos com instrumentos que, no limite, matam. Afirmam prestígio na exibição de signos de status à custa de crianças e jovens, até dos próprios filhos, pondo-lhes nas mãos ferramentas de homicídio. A indulgência da lei e dos tribunais acaba fechando o círculo vicioso da impunidade, que consagra a injustiça e não dá ao transgressor a oportunidade de expiar seu delito. Viverá com a alma manchada pelo sangue alheio.

26/02/2012

‘Azarão’ do Oscar é um tapa na afetação (Matheus Pichonelli)


Carta Capital

Imagine a cena. Toda vez que seu tio fala do quanto gastou com a reforma da casa, o cunhado volta a defender a pena de morte, a cunhada dá detalhes sobre seu mestrado em poodlesanêmicos da Austrália, a irmã cita as virtudes financeiras e a viagem MA-RA-Vi-LHO-SA com o novo namorado ou a prima desembesta a narrar a próxima cirurgia plástica, um sujeito de óculos, magrelo, aparece desembestado olhando para a câmera com o polegar para trás dizendo: “deprimente, não?”.
Não sei se vocês perceberam, mas a humanidade dá cada vez mais sinais de cansaço e preguiça. Não bastassem as tragédias que temos de engolir todos os dias sobre acidentes evitáveis, guerras desnecessárias, bombardeios intencionais e cinismos publicados em Diários Oficiais, ainda temos de conviver, a poucos metros, com as ninharias mais fúteis que o ser humano pode produzir.
No filme, Allen encarregou Gil (Owen Wilson) de dar o seu recado à birguesia afetada: “vocês são insuportáveis”
Nos últimos tempos, temos visto e ouvido de tudo em rodas de conversas que reúnem dois ou mais bípedes numa mesma mesa. Todos os campeões em tudo desfilam a olhos vistos como no Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa (“Nunca conheci quem tivesse levado porrada”).
O fato é que entendo cada vez mais os adolescentes que abandonam conversas de adultos e mergulham em fones de ouvido para fugir de conversas sobre temas lamentáveis. “Rapaz, o fulano tá lavando a égua com aquela firma, viu?”; “Comprei o meu em Nova York por muito menos”; “Tá tão difícil arrumar empregada hoje em dia”; “Meu currículo fala por si só”; “Meu cartão de crédito não tem limites”; “O lugar anda muito mal frequentado”…
Como não há fones de ouvido por perto, olho para o lado e lamento que a vida real não seja um livro, ou filme, em que digressões ainda são permitidas. Só para poder deixar claro que ninguém suporta o garanhão falador, a perua sem superego nem o ricaço babão.
Mas a digressão é, infelizmente, um recurso restrito à criação artística. Na literatura, era a posição de jogo favorita de Machado de Assis. Ninguém como ele mandava parar a “cena” de tempos em tempos para tecer comentários acerca dos personagens que ele mesmo criava. Cada digressão era uma cusparada nos maus (ou bons) costumes – uma cusparada no centro da luva pelica e golpeada à mão cheia, no meio do rosto.
No cinema, poucos fazem isso melhor e tão descaradamente quanto Woody Allen. Basta lembrar da cena clássica de “Noivo Neurótico, noiva nervosa”: desgastado com as afetações do mundo que o cerca, Alvy Singer (personagem interpretado pelo próprio Allen diretor) interrompe uma conversa entre desconhecidos que falavam sobre Marshall McLuhan na fila do cinema. Pede para que o sujeito sabidão pare de falar bobagens e recebe uma carteirada: “sou estudioso e autoridade no assunto”. Irritado, Singer sai de cena e volta com o próprio McLuhan pelo braço. E pergunta: “Professor, esse sujeito sabe alguma coisa que está dizendo”. E McLuhan, o próprio, responde: “Não, ele não entendeu nada”.
Tudo o que Gil queria, na viagem, era visitar a Paris que, décadas antes, reuniu seus artistas favoritos
Olhando a lista de indicados ao Oscar de melhor filme neste ano, chega a dar pena que o último filme de Allen, “Meia Noite em Paris”, tenha tão poucas chances de levar a estatueta. Lançado no meio do ano passado, o filme corre atrás, literalmente, das grandes produções recém-saídas do forno, como o belo e favoritíssimo “O Artista” – cujo prêmio ainda pode engordar as fileiras das salas onde ainda está em cartaz.
Ainda assim, entre todos os filmes indicados, “Meia-Noite em Paris” é, talvez, o que mais bem representa o grito de um humanismo doente, golpeado pela avareza de espírito que assola o século XXI. No filme, Allen distribui, com elegância, cusparadas sobre uma burguesia afetada, vazia e arrogante que hoje dá as cartas no Planeta. O ator-diretor não está lá, mas encarregou o jovem escritor Gil (Owen Wilson) de dar o seu recado: “vocês são insuportáveis”.
De tudo tudo, o que mais chama a atenção no filme é a capacidade de levar à tela cenas que, fatalmente, o espectador mais atento já testemunhou: os caprichos de uma esposa vazia, a cobrança dos sogros para que ele “pense grande” e “enriqueça”, o deslumbramento ingênuo de um casal de amigos encontrados por acaso em Paris (um casal que daria preguiça em qualquer ser humano).
Tudo o que Gil queria, na viagem, era visitar a Paris que, décadas antes, reuniu e inspirou seus artistas favoritos, como Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway e Luis Buñuel. Mas, como tudo o que as pessoas na sala de jantar querem é nascer e morrer – ou ir às compras e desfilar a própria ostentação – Gil se vê sozinho no propósito de, simplesmente, andar, caminhar, conhecer gentes e lugares. Em vez disso, apenas testemunha a babação de ovo sobre os amigos ricos – e ouvir, nas visitas ao Louvre e aos jardins de Versalhes, o marido da amiga se declarar especialista em tudo o que envolve a cidade-luz, os vinhos inclusive…(dão ou não dão preguiça?)
Enquanto os amigos desfilam suas referências, Gil vai direto à fonte, e transforma os ídolos famosos em velhos amigos. A realidade, parece dizer Allen, é tão tosca e cansativa que o melhor refúgio são os próprios sonhos, ou a projeção de algo que transcenda às mesquinharias mundanas. Se o circulo de quem um dia pensou e mudou os rumos da humanidade era de fato tão nobre e sublime não se sabe – os ídolos, afinal, têm pés de barro.
Mas o recado está dado e é uma pena que só as crianças possam ser indelicadas o suficiente para colocar os fones nos ouvidos e deixar os adultos vomitando sozinhos, taças para o alto, as próprias conquistas. Na vida social adulta, ainda não inventaram o “mute” nem uma câmera que congelasse imagens e delatasse na tevê as nossas próprias patacoadas.
Para todo o resto existe a digressão. E Woody Allen.

25/02/2012

O crime organizado, carnaval e futebol (Mauro Santayana)


Carta Maior


Por mais importante seja a alegria do povo, nas arquibancadas dos estádios e das passarelas do carnaval, uma coisa não pode ser confundida com a outra. A corrupção e o jogo do bicho são atividades criminosas, e devem ser investigadas e punidas.


Conhecidos jogadores de futebol, ídolos do público, como Ronaldo e Neymar, defendem o Sr. Ricardo Teixeira das acusações que lhe estão sendo feitas. Para os dois profissionais, o presidente da CBF é um homem excepcional, que prestou grandes serviços ao esporte, e não deve ser afastado de seu cargo. Ao mesmo tempo, diretores de escolas de samba investem contra o governador Sérgio Cabral, que fez declarações contra a participação dos bicheiros no carnaval carioca. Ora, se se confirmarem as denúncias contra Teixeira e seu sogro, João Havelange, eles poderão ser qualificados como participantes de uma forma de crime organizado. E o jogo do bicho, até que haja leis em contrário, é uma atividade criminosa. 

Por mais importante seja a alegria do povo, nas arquibancadas dos estádios e das passarelas do carnaval, uma coisa não pode ser confundida com a outra. A corrupção e o jogo do bicho são atividades criminosas, e devem ser investigadas e punidas. O episódio nos conduz a pensar um pouco sobre a tolerância nacional para com os que violam as leis. Homens públicos de biografia conhecida se tornam facilitadores de negócios, sob o rótulo genérico de consultores. A atividade de consultores está ligada à especialidade de cada um deles. Um jornalista pode dar consultoria em divulgação de empresas: é sua especialidade. Um engenheiro calculista faz o mesmo, e o mesmo pode fazer um geólogo. Os médicos e advogados são consultores de tempo integral. Mas os lobistas não são consultores: são corretores de negócios – geralmente negócios com o poder público.

Os ídolos do público, jogadores de futebol ou sambistas, vivem em outra dimensão da realidade. Os craques de futebol, principalmente os de hoje, estão afastados da maioria da sociedade. Ganham fortunas, porque, com seu talento, geram fortunas ainda maiores. Fora alguns casos – e Romário é um deles -, distanciam-se das coisas cotidianas e vivem, como é natural, navegando nas nuvens da própria glória. Não deviam, sendo assim, imiscuir-se nas coisas políticas. 

É de se recordar a desastrada declaração de Pelé, a de que o povo não sabe votar, feita ainda durante o regime militar. Recorde-se que grande parte de sua carreira coincidiu com o auge da Ditadura, quando um dos presidentes, Garrastazu Médici, se jactava de ser o maior torcedor brasileiro, a ponto de dar palpites sobre o elenco da seleção e receber a corajosa resposta de João Saldanha: “ao presidente cabe escalar o Ministério, e, a mim, escalar o time”. 

É velha a tolerância nacional para com os bandidos simpáticos. Durante muitos anos reinou, absoluto, como o maior contrabandista do Rio, o célebre Zico, proprietário do famoso Bar Flórida, da Praça Mauá. O bar era o ponto mais conhecido da boemia carioca, freqüentado por prostitutas, marinheiros e malandros. Milionário, Zico era, como todos os sujeitos de sua estirpe, generoso por esperteza, a fim de angariar o apoio de parcelas da população, e financiador de vereadores cariocas. Conta-se que até mesmo Dutra, presidente de sua época, o recebia no Catete. Ao que se sabe, ele nunca foi incomodado pela polícia. 

Estamos em uma fase de saneamento moral na atividade política, com a aprovação definitiva da exigência de ficha limpa aos candidatos aos cargos eletivos. Alguns governos estaduais – e o primeiro deles foi o de Minas – já adotaram a exigência e se comprometem a não nomear quem não possa cumpri-la. Seria bom que as escolas de samba não se deixassem governar por notórios bicheiros, e que o futebol voltasse a ser o que foi no passado. Tudo isso é difícil, mas não podemos esmorecer. 

Saudosos da ditadura engolem a língua


Por Altamiro Borges

Por determinação do comandante do Exército, Enzo Perri, o “manifesto” com críticas à presidente Dilma Rousseff assinado pelos três clubes militares, que reúnem os oficiais da reserva saudosos da ditadura, foi retirado do ar ontem. O texto gerou mal-estar na cúpula das Forças Armadas e resultou numa reunião emergencial com o ministro da Defesa, Celso Amorim. E não era para menos!

O documento criticava as ministras Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, e Eleonora Menicucci, da Secretaria das Mulheres, por suas defesas da Comissão da Verdade, que visa apurar os crimes da ditadura. Pior ainda, “cobrava” da presidenta a censura às ministras. Ele ainda atacava as “minorias sectárias e os partidos políticos” que lutam pelo resgate da memória histórica.

Ranço autoritário que persiste

No seu conjunto, o “manifesto” revela o ranço autoritário que persiste em setores militares. Num dos trechos, lembra a cantilena dos golpistas de 1964. “Ao completar o primeiro ano do mandato, paulatinamente vê-se a presidente afastando-se das premissas por ela mesma estipuladas”, referindo-se ao combate à corrupção. 

Noutro trecho, ao se referir à ministra Eleonora Menicucci, ele parece ter sido escrito pelos torturadores do regime militar. “Ora, todos sabemos que o grupo ao qual pertenceu a senhora Eleonora conduziu suas ações no sentido de implantar, pela força, uma ditadura [comunista], nunca tendo pretendido a democracia”.

Viúvas da ditadura continuam ativas

O texto foi assinado pelos presidentes do Clube Militar, Renato Cesar Tibau Costa, do Clube Naval, Ricardo Cabral, e do Clube da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista – todos na reserva. Ele confirma a existência de um setor militar saudoso da época das torturas e assassinatos, que até hoje trata o golpe de 1964 como “revolução” e venera as barbaridades praticadas pela ditadura.

Diante das reações, o “manifesto” foi retirado do sítio do Clube Militar. No seu lugar, foi postada uma nota lacônica: “Com relação à nota Manifesto Interclubes Militares de 16/02/2012, os presidentes dos clubes militares desautorizam o referido documento” – que eles mesmos haviam assinado. O aparente recuo, porém, não deve tranqüilizar as forças democráticas. 

As “viúvas da ditadura” continuam ativas na sociedade. É só lembrar a campanha presidencial de 2010, quando o tucano Serra foi recebido no Clube Militar como a salvação diante do “perigo comunista”. Ou dos vários artigos golpistas de “calunistas” da mídia – a mesma que apoiou o golpe e a ditadura militar.

24/02/2012

A falta da voz brasileira na Globo


Mais de uma vez eu já havia notado que os apresentadores de telejornalismo têm uma língua diferente da falada no Brasil. Mas a coisa se tornou mais séria quando percebi que, mesmo fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais, de cada região, também falavam uma outra língua. 


Por Urariano Mota*


O que me despertou foi uma reportagem sobre o trânsito na Avenida Beberibe, no bairro de Água Fria, que tão bem conheço. E não sei se foi um despertar ou um escândalo (Ver aqui).

Na ocasião, o repórter, o apresentador, as chamadas, somente chamavam Beberibe de Bê-Bê-ribe. O que era aquilo? É histórico, desde a mais tenra infância, que essa avenida sempre tenha sido chamada de Bibiribe, ainda que se escrevesse e se escreva Beberibe. 

Ligo para a redação da Globo Nordeste. Um jornalista me atende. Falo, na minha forma errada de falar, como aprenderia depois:

- Amigo, por que vocês falam bê-bê-ribe, em vez de bibiribe?
- Porque é o certo, senhor. Bé-Bé é Bebê. 
- Sério? Quem ensina isso é algum mestre da língua portuguesa? 
- Não, senhor. O certo quem nos ensina é uma fonoaudióloga. 

Ah, bom. Para o certo erram de mestre. Mas daí pude ver que a fonoaudióloga como autoridade da língua portuguesa é uma ignorância que vem da matriz, lá no Rio. Ou seja, assim me falou a pesquisa: 

“Em 1974, a Rede Globo iniciou um treinamento dos repórteres de vídeo... Nesse período a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller começou a trabalhar na Globo. Como conta Alice-Maria, uma das idealizadoras do Jornal Nacional: “sentimos a necessidade de alguém que orientasse sua formação para que falassem com naturalidade”. 

Foi nesta época, que Beuttenmüller, começou a uniformizar a fala dos repórteres e locutores espalhados pelo país, amenizando os sotaques regionais. No seu trabalho de definição de um padrão nacional, a fonoaudióloga se pautou nas decisões de um congresso de filologia realizado em Salvador, em 1956, no qual ficou acertado que a pronúncia-padrão do português falado no Brasil seria do Rio de Janeiro”. (Destaque meu.)

Mas isso é a morte da língua. É um extermínio das falas regionais, na voz dos repórteres e apresentadores. Os falares diversos, certos/errados aos quais Manuel Bandeira já se referia no verso “Vinha da boca do povo na língua errada do povo/ Língua certa do povo”, ganha aqui um status de anulação da identidade, em que os apresentadores nativos se envergonham da própria fala. Assim, repórteres locais, “nativos”, se referem ao pequi do Ceará como “pê-qui”, enquanto os agricultores respondem com um piqui. 

De um modo geral, as vogais abertas, uma característica do Nordeste, passaram a se pronunciar fechadas: nosso é, de “E”, virou ê. E defunto (difunto, em nossa fala “errada”) se transformou em dê-funto. Coração não é mais córa-ção, é côra-ção. Olinda, que o prefeito da cidade e todo olindense chamam de Ó-linda, nos telejornais virou Ô-linda. Diabo, falar Ó-linda é histórico, desde Duarte Coelho. Coisa mais bela não há que a juventude gritando no carnaval “Ó-linda, quero cantar a ti esta canção”. Já Ô-linda é de uma língua artificial, que nem é do sudeste nem, muito menos, do Nordeste. É uma outra coisa, um ridículo sem fim, tão risível quanto os nordestinos de telenovela, com os sotaques caricaturais em tipos de físicos europeus.

Esse ar “civilizado”de apresentadores regionais mereceria um Molière. Enunciam, sempre sob orientação do fonoaudiólogo, “mê-ninô”, “bô-necÔ”, enquanto o povo, na história viva da língua, continua com miní-nu e buneco. O que antes era uma transformação do sotaque, pois na telinha da sala os apresentadores falariam o português “correto”, atingiu algo mais grave: na sua imensa e inesgotável ignorância, eles passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da região. 

O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambuco, se pronuncia agora como Pêr-nambuco. E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento local, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, amigos, eu vi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala jUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.